sábado, 3 de dezembro de 2016

A fina arte de errar

Mais uma queda ou a chance de sair fortalecido? A monja budista tibetana Pema Chödrön prefere enxergar os eventos dolorosos como mestres que nos ensinam a cair e levantar sucessivas vezes

Texto: Raphaela de Campos Mello
Revista Bons Fluidos

“Falhe. Falhe de novo. Falhe melhor”, instiga Samuel Beckett (1906-1989). A desafiadora proposta do dramaturgo e escritor irlandês resume a certeza da monja Pema Chödrön. “Todos nós realmente precisamos aprender a falhar bem”. Mas como aceitamos nossos deslizes em um mundo que vangloria o sucesso? 

“Não nos preparamos para as falhas porque almejamos que tudo saia do jeito que queremos. Apreciamos a sensação maravilhosa que o bem-suceder nos traz”, ela sublinha. Cedo ou tarde, no entanto, a “crueza da vulnerabilidade” nos encontra. Algo sai do controle e nos frustra, decepciona, fere. É aí então que a educação contemplativa oferece boa parcela de conforto. Aquietar a mente no recolhimento é uma maneira amorosa de sentir como as adversidades nos impactam nas partes mais profundas de nós mesmos. “A meditação auxilia o indivíduo a assumir a responsabilidade pelo que está acontecendo e a encontrar recursos para lidar com a dor”, afirma Pema.

Certa vez, ela mesma visitou o fundo do poço. Perdida e amedrontada, foi buscar a ajuda de seu mestre, Chögyam Trungpa Rinpoche. Muito rapidamente, ele a aconselhou: “Levante-se, porque a opção de permanecer entregue equivale à morte”. Para ilustrar seu raciocínio, o religioso pediu que ela se imaginasse submersa no mar. À certa altura, ela deveria se erguer e caminhar em direção à praia – caso contrário, seria o fi m. Mas daí uma onda certamente viria derrubá-la. Ela cairia de novo no fundo do oceano, atordoada. Novamente, ela teria a chance de permanecer entregue ou se levantar e caminhar. 

Mas o mar não para de mandar onda atrás de onda. O que fazer? Colocar-se de pé e cair à exaustão? “Permaneça cultivando a coragem e o senso de humor em relação à realidade das ondas e assim continue levantando e avançando”, ensinou o mestre. Se persistir, ele continuou, “perceberá que as ondas parecerão menores a ponto de não mais derrubá-la”. Pema, então, compreendeu que ser nocauteada pelo mar sucessivas vezes era uma forma de aprender com a natureza a se fazer mais forte a cada tentativa. Nesse ponto da jornada, garante a religiosa, estamos prontos para lidar com o sentimento de fracasso ao invés de soterrá-lo em algum canto escuro do peito. Culpandose pelo infortúnio ou colocando a culpa em alguém. “Somente quando sentimos a crueza da vulnerabilidade em nossos corações conseguimos verdadeiramente nos conectar com nossos semelhantes e com a nossa humanidade”, ensina a monja. A dor, então, se mostra propulsora do crescimento interior e da capacidade de seguir em frente. 

“Nossas melhores qualidades provêm desse lugar porque ele nos obriga a nos desarmar e nos abrir. Falhar, então, torna-se solo fértil ao invés de mais um tapa na cara”. As ondas que insistem em nos atingir podem ser até maiores do que suas antecessoras. Entretanto, teremos aprendido a surfá-las. Mesmo que o sofrimento ainda machuque, somos capazes de reconhecê-lo como parte inescapável da experiência humana. E isso, de alguma forma, nos pacifica.


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