quinta-feira, 28 de setembro de 2017

É hora do chá

Revista Bons Fluidos

Desligue o celular, estenda uma toalha florida sobre a mesa, coloque sua louça mais bonita e prepare-se para um momento de desintoxicação de tudo que não for saboroso e gentil

Texto: Kátia Stringueto Fotos Paulo Santos

Sylvia Rodrigues pode ser chamada de maga das misturas de ervas. Sabe tudo de plantas. É formada em farmácia, adepta da antroposofia e por muitos anos trabalhou para
a Weleda, multinacional que produz medicamentos e cosméticos voltados para os princípios dessa linha terapêutica. Por essa composição de saberes, os chás e suas
funções sempre estiveram presentes na rotina da profissional. É uma verdadeira sommelier do chá, capaz de avaliar, selecionar e recomendar as melhores opções
para o consumo. Alguém precisa de uma infusão que trate o corpo mas também acalme a alma? Ela sabe indicar qual. “O chá promove o bem-estar geral. Os aromas,
graças aos óleos essenciais, começam a agir no seu corpo astral, nas emoções, enquanto o vegetal traz a vitalidade, o benefício físico”, explica.

Mas algo dessa química ia além de toda explicação. Os chás enterneciam os encontros. Viravam assunto por si mesmos (quem não quer saber de onde vem o chá azul da foto ao lado?). E Sylvia observava isso com gosto. Um dia, a sua paixão pela cultura inestimável da bebida e o desejo de criar diferentes fórmulas que atiçassem o paladar transcendeu o seu lado “farmacêutico”. A especialista deixou a Weleda e abriu uma pequena loja sobre uma lavanderia, em São Paulo. Pequenina. Adorável. Até que a caixa d’água do prédio estourou e um tsunami escorreu pelas paredes e pelas lâmpadas de LED instaladas acima de cada prateleira de ervas. “Perdi tudo. Meu filho brincou: ‘Mãe, você fez todos os chás no mesmo dia!’”, lembra ela. Bendito dia. “Diante de toda aquela inundação, eu senti que precisava de conforto. Disse pra minha outra filha: ‘Preciso de um macarrão com vinho, e só pode ser o do Caio [dono de um restaurante que ela frequentava com a família]. Vem comigo’”, conta.

E, como a gente nunca sabe na hora a importância dos fatos que vivencia, Sylvia ficou duas vezes decepcionada quando viu a placa avisando que o restaurante havia
fechado suas portas. “Liguei na hora pro Caio querendo saber o que tinha acontecido e contei da minha tragédia. Em minutos ele veio me encontrar com uma garrafa
de vinho debaixo do braço e a chave do espaço. Bebemos, ele, minha filha e eu, nas únicas três taças que haviam sobrado lá enquanto ele explicou que passava por problemas financeiros e estava vendendo a casa”, conta.

Entrar no restaurante, que tem dois pavimentos e um belo jardim, admirar suas portas e janelas com marcas dos anos, despertou a memória de bons tempos. Quando o amigo lhe sugeriu ficar com o imóvel, ela balançou. Não tinha dinheiro suficiente. “Liguei pro meu marido, fizemos contas, ele disse não. Mas algo dizia tão forte que ia dar certo que eu aluguei mesmo assim. Escondido”, brinca.

A Teakettle (nome da casa, que significa bule de chá) está dando certo desde então, e com o apoio do marido de Sylvia. Tem salas arejadas e acolhedoras, decoradas com mesinhas redondas nos salões, e um mesão na área externa, do jardim. Toalhas estampadas, muitos vasinhos desconjuntados de flores, dois pianos. Transborda
carinho em todos os detalhes. E, mesmo que ninguém diga, propõe o slow living. “Quem se senta para um chá se prepara para um detox. Bebe e vai lavando toxinas, inclusive as de um dia que foi pesado, em que você xingou o governo, o trabalho, o trânsito...”, cutuca a espirituosa Sylvia. “Aquele momento em que você está sem celular, comendo coisinhas gostosas, tomando uma bebida que só pelo aroma já harmoniza tudo, desarma as pessoas. É só o tempo de fazer um bolinho de chuva.”

É um momento de se surpreender quando chega um lindo chá azul, o blue tai tea, potente para a imunidade – presente que vem da Tailândia e que fica da cor da
lavanda se incluímos algumas gotas de limão. Sylvia passa de mesa em mesa explicando tudo, como uma amiga que se diverte ao compartilhar curiosidades. Quem
pede um puer, e as chinesas o pedem muito, aprende que esse chá preto já foi proibido por Mao Tsé Tung. “O motivo? Seu gosto de terra ampliava a consciência.
Por isso tinha que ser tomado escondido”, conta a expert. Ela aprendeu que cada um tem seu jeito de tomar chá, e isso é especialmente encantador. “A primeira vez que
as coreanas vieram aqui foi uma surpresa. Elas não trocam a xícara. Resultado: tive que fazer um chá bem concentrado e trazer bules de água quente para elas mesmas irem diluindo a bebida aos poucos.”

As islâmicas gostam de vir passar o dia. As francesas pedem madeleines de acompanhamento. Essa relação com grupos de diferentes países surgiu há alguns anos.
“Uma inglesa, a Alma, esposa de um reverendo da Igreja Anglicana, me avisou que traria outra inglesa para um chá da tarde. Alma me deu uma cestinha de palha
com uma toalha de renda e quatro scones (pãozinho inglês para comer com geleia) para servir. Preparei uma mesa impecável e, pontualmente, às 16h30, elas chegaram.
Servi o chá preto, um pouquinho de leite e os scones – como ela pediu –, e saíram tão felizes que entendi o conforto emocional. Para alguns, de volta à terra natal.”

Hoje, além dos grupos citados, há também os de colombianas e de portuguesas, que se destacam porque preferem chás coloridos, aromáticos, alegres.

Preto ou verde, de melissa, hortelã-pimenta, camomila, maçã, erva-cidreira ou rosa, todos os tipos convivem em santa paz nessa ONU das casas de chá. A atmosfera
da Teakettle contagia, mas Sylvia não se vangloria disso. Sua devoção é à pausa para degustar, ao encanto, ao bom papo. E qualquer um consegue reproduzir isso na própria vida. “O pão com manteiga servido com café ou chá de hortelã sobre uma mesa com toalhinha humilde é a melhor coisa do mundo. Quando sua avó diz que não tem nada para oferecer, mas coloca sobre a mesa esse carinho, isso é a melhor coisa do mundo.”
Fonte: Revista Bons Fluidos


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Descubra como combater a ansiedade com alimentação saudável

 

A correria do dia a dia é uma das principais causas da ansiedade. Saiba como tratar com estas dicas de Sidney Oliveira

Bons Fluídos digital
A ansiedade, ânsia ou até mesmo o nervosismo são características biológicas do ser humano, que acontecem antes de momentos de perigo real ou imaginário, causando sensações corporais desagradáveis. É uma reação natural ao medo ou por expectativa de acontecimentos. Quando é  intensa, é caracterizada pela preocupação excessiva e descontrolada sobre um fato ou acontecimento. 

Os principais motivos que desencadeiam a ansiedade estão ligados a inúmeras situações do dia a dia, desde a ansiedade que antecede uma prova, uma entrevista ou preocupação com entes queridos, até a espera do resultado de um exame médico. 

O diagnóstico da ansiedade é feito por meio da constatação de sintomas como insônia, sensação de estômago vazio, coração batendo rápido, medo intenso, aperto no tórax, transpiração, sudorese excessiva, irritabilidade, inquietação, falta de memória, falta de concentração e respiração curta alterada. 

O tratamento deve ser acompanhado por um profissional da área da saúde, seja médico, psicólogo, terapeuta, etc.Mas existem diversos nutrientes contidos nos alimentos que aumentam a sensação de bem-estar e podem combater os sintomas da ansiedade. 

Carnes, ovos, leite e derivados
Excelentes fontes de triptofano, aminoácido que, juntamente com a vitamina B3 e o magnésio, ajudam a melhorar a qualidade do
sono e estimulam a produção de serotonina, conhecida como o hormônio da felicidade. Opte por carnes vermelhas com pouca gordura, e o leite na versão desnatado, pois o alto consumo de gordura pode influenciar de forma
negativa no tratamento.

Chocolate
O cacau é um alimento rico em flavonoides, compostos antioxidantes que ajudam na maior liberação de serotonina e contribuem para amenizar os sintomas da ansiedade. Dê
preferência aos chocolates amargos ou meio amargos, pois contêm maior quantidade de cacau em sua composição.
Modo de usar: derreta e consuma com banana, outra opção de fruta riquíssima em triptofano.

Cereais integrais
Arroz, macarrão, biscoitos e pães, nas versões integrais, elevam o nível de açúcar no sangue de forma mais lenta. Contêm magnésio, que controla os sintomas da ansiedade.

Frutas cítricas
Frutas como laranja, acerola, pitanga, limão, morango, jabuticaba e até a banana são ótimas fontes de vitamina C, que auxilia na redução da liberação de cortisol, hormônio relacionado com
estresse e sintomas de ansiedade.

Chás 
Melissa (Melissa officinalis): esta planta auxilia no tratamento da ansiedade, pois apresenta ação calmante. O consumo do chá ao longo do dia reduz o consumo alimentar em frequência e volume. Modo de usar: ferver um litro de água, adicionar uma colher de sopa de melissa seca e manter a fervura por 5 minutos em panela tampada. Após a fervura, deixar descansar e beber morno ao longo do dia.

Confira outras dicas para o tratamento da ansiedade e de outras doenças no livro O Segredo de uma Vida Saudável.

Supremo mantém aula de religião em escola pública

Folha de S.Paulo
Brasília - Por seis votos a cinco, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu ontem que os professores de escolas públicas podem pregar suas crenças na sala de aula.
Os ministros analisaram um pedido da PGR (Procuradoria-Geral da República).
Para a Procuradoria, o ensino religioso em escolas públicas só pode ser de "natureza não confessional", ou seja, sem vinculação a uma religião específica, com proibição de admissão de professores na qualidade de representantes das confissões religiosas.
A ação foi impetrada pela Procuradoria para discutir dispositivos da Lei de Diretrizes e Bases da Educação sobre ensino religioso nas escolas públicas.
O objetivo era mudar a legislação atual.
O artigo 210 da Constituição diz que "o ensino religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental".

Doria corta professor 'coringa' para tapar buraco na periferia

Folha de S.Paulo
A gestão João Doria (PSDB) decidiu reduzir o número de professores que têm o papel de substituir os titulares das salas de aulas e também atuar em outras funções pedagógicas nas escolas.
Eles vão tapar buracos em unidades onde faltam titulares, principalmente nos bairros da periferia da capital.
A prefeitura diz que não haverá demissões.
Espécie de coringas, os professores substitutos são fixos nas escolas e já atuam com alta demanda no dia a dia, em uma rede de ensino com salas superlotadas sobretudo na pré-escola e um alto índice de profissionais faltosos ou licenciados.
O corte dos substitutos foi definido em portaria no último sábado e provocou críticas entre sindicatos e professores, que alegam falta de diálogo com a prefeitura.
Um exemplo: uma escola de educação infantil com dez turmas deveria ter três professores substitutos de acordo com a regra anterior.
Com a nova norma da gestão tucana, serão apenas dois.
Resposta
O secretário municipal da Educação, Alexandre Schneider, diz que o objetivo da mudança é "dar equilíbrio à rede" e "ter professores nas áreas centrais e na periferia".
Ele afirma ainda que a alteração afeta "funções, e não pessoas", porque o atual modo de distribuição de professores "existe há dez anos e nunca foi ocupado integralmente".
Segundo ele, não haverá alunos sem aula por falta de substituto.
O secretário afirma que a atual gestão tem ampliado o número de docentes.
"Nós colocamos 9.000 professores a mais."

Hospital deixa pacientes nus e forra camas com cobertores

Leonardo Fuhrmann
do Agora
Pacientes internados do Hospital Municipal de Santo André (ABC), sob a gestão do prefeito Paulo Serra (PSDB), estão sem lençóis e camisolas.
O Agora entrou no pronto-socorro do hospital e encontrou muitas camas forradas apenas com papel e outras, com cobertores.
Havia pacientes sem roupa no local e, no lugar de lençóis, usavam cobertores para se cobrir.
De acordo com funcionários, o problema teve início na semana passada, quando a lavanderia que presta serviços ao hospital suspendeu os serviços sob a alegação de falta de pagamento.
Muitos pacientes aguardam vagas em quartos e na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) nos corredores no hospital e ficam expostos com a falta de roupas adequadas.
É o caso de Luiz Poian, 64 anos, que sofre de problemas hepáticos.
Ele está no corredor junto com outros pacientes de sinal vermelho (graves) à espera de uma vaga na UTI.
Filha dele, a técnica de enfermagem Lilian Regina Poian, de 37, diz que encontrou o pai nu quando foi ontem ao hospital.
"Não tinha roupa nenhuma nele. Na cama, colocaram um cobertor embaixo dele e outro em cima", diz Lilian.
No horário da visita, a temperatura na cidade era próxima de 30ºC.
Resposta
A Secretaria Municipal da Saúde de Santo André, sob a gestão Paulo Serra (PSDB), afirmou, em nota, que abriu diálogo com a lavanderia para regularizar a situação.
Segundo a pasta, a dívida pendente é referente ao ano passado.
"Apesar de a dívida ter sido gerada na gestão anterior, os débitos estão sendo normalizados pela atual administração."
A nota diz que procedimentos cirúrgicos "seguem em ritmo normal" e "as poucas cirurgias que foram transferidas" serão realizadas a partir de hoje".
O ex-prefeito Carlos Grana (PT) disse que não deixou dívidas e que sua administração não teve problemas semelhantes.
Afirmou que Serra "deveria lembrar que participou da gestão passada".

Boa quinta!


sábado, 23 de setembro de 2017

E aí?!

 

A serventia do encantamento no dia a dia

O cotidiano está cheio de descobertas e prazeres, mas precisamos saber reconhecê-los. Isso nos ajuda a ter uma vida mais feliz e a encontrar poesia onde antes parecia existir apenas cinza

Revista: VIDA SIMPLES 

Há pouco tempo soube pelos jornais que apareceria uma superlua e que ela seria a maior de todas em 68 anos. Será mesmo? Não tenho medidor de lua, mas a manchete de um portal dizia assim: “Quer registrar a superlua de hoje no seu celular? Veja aqui dez dicas”. Dez dicas para ver da mesma forma o que todo mundo acha que está vendo? Registrar a Lua no celular, em vez de olhar na cara dela? Que cansaço me deu pensar em selfies lunares... A Lua é súper todos os dias, mesmo quando não usa capa nem ganha manchetes nos jornais. É só botar reparo nela. Porém, para isso precisamos reaprender a sentir sem pressa tudo o que está à nossa volta. E, apesar de todos os embrutecimentos que nos cercam, acho que passar o dia todo sem ver, sem escutar, sem provar, sem cheirar, sem tocar o mundo, e sem permitir que ele nos toque, nos afete, nos desarrume por dentro, é viver sem sentido nenhum. Nesse sentido, há mais de 20 anos, tenho viajado por todas as regiões do Brasil para falar da serventia do encantamento na vida da gente. Um dia, eu rabiscava algo sobre isso, antes de uma viagem. Dentro do avião, vi que quase todas as pessoas conversavam ao telefone, mandavam mensagens, batiam fotos, balançavam a cabeça com seus fones no ouvido. Mas não me senti tão sozinho quando reparei que uma mulher escrevia a lápis em uma folha de papel almaço e parava para contemplar o movimento dos passageiros e das comissárias. Nem sabia que ainda existem pessoas que escrevem a lápis em folhas de papel almaço. Senti vontade de saber o que ela tanto escrevia enquanto olhava, e o que tanto olhava enquanto escrevia. Entretanto, na maioria das vezes, imaginar me tenta ainda mais do que saber. Para dar um pouco de descanso na imaginação, olhei pela janela, mas quase tive um troço quando li o que eu já havia lido tantas vezes, sem parar para refletir. Estava escrito lá: NÃO PISE NA ASA. E eu não sabia o que fazer com aquela perturbação. Afinal, eu pensava, para quem será que escreveram um aviso tão desatinado? Para um pelicano alfabetizado? Para um anjo leitor? Para uma alienígena viciada em pisadas de asa? Pensei em pedir à aeromoça que clareasse o meu tormento, mas achei que ela também poderia entrar em parafuso e espalhar desnorteio entre os passageiros. Ao meu lado, um homem fotografava a própria tela do computador, e a tela estava cheia de gráficos ainda mais assustadores que aviso para pelicano. Então tive mesmo que conviver sozinho com aquela frase, até o avião pousar. Dias depois, jantando com um velho amigo, perguntei se já havia reparado naquela história de não pisar na asa, e ele, rindo da minha angústia, me explicou: “Rapaz, não é possível que você não saiba... esse lembrete é para os caras da manutenção não pisarem naquele local específico, enquanto estiverem trabalhando”. Naquele momento, disse ao meu amigo: “Muito obrigado, você acaba de pisar na minha asa”. Esse episódio me leva a um poema do Mario Quintana chamado Crenças, publicado no livro Velório sem Defunto (Alfaguara). “Seu Glicínio porteiro acredita que rato, depois de velho, vira morcego / É uma crença que ele traz da sua infância. / Não o desiludas com o teu vão saber. / Não o esclareça dos seus queridos enganos. / Não se deve tirar o brinquedo de uma criança. / Tenha ela oito ou oitenta anos.” Seu Glicínio porteiro me faz pensar: para que servem essas explicações de tirar brinquedo? Qual o gosto de passar uma caneta vermelha na fantasia alheia? Quantas vezes será que pisamos na asa de alguém com o nosso vão saber? Na realidade, mais do que tudo, acho que só tiramos o brinquedo de alguém quando não conseguimos enxergar a nossa própria asa, tão atrofiada por falta de uso. E, se não enxergamos a nossa própria asa, como vamos enxergar a asa do outro? Quantas vezes também será que nós pisamos, abrindo mão dos nossos desejos mais simples, mais legítimos, mais autênticos? No rastro dessas perguntas, há dois anos, passei uns dias com o meu filho, Gabriel, em Buenos Aires, capital portenha. Chegamos lá com roteiros que amigos nos fizeram de tudo o que não poderíamos deixar de conhecer, e realmente conhecemos lugares deliciosos, mas gostamos ainda mais de nos perder pela cidade, flanando, sem roteiros, sem mapas, de café em café, de uma praça a outra, de cena em cena, de pessoa em pessoa. Foram dias feitos de conversas, sentidos, silêncios, reparos. E, no meio 
de um desses reparos, quando estávamos prestes a fazer um passeio de ônibus pela cidade, escutamos um casal que conversava atrás de nós. Palavras da mulher, enquanto entrávamos no ônibus: “Ai, que cheiro de flor... Não gosto de cheiro de flor”. Ao meu lado, já sentado, Gabriel comentou a frase: “Dizer que não gosta de cheiro de flor é o mesmo que dizer que não gosta de vida, não acha? Para mim, foi pior que se ela dissesse: ‘Eu detesto cheiro de flor’. Eu acho que não gostar é pior que detestar”, me disse o meu filho, na época com 14 anos. Concordei com ele. Se ela dissesse que detesta cheiro de flor, poderia estar num mau dia, aborrecida por algum acontecimento, movida por alguma emoção de destrambelhar lucidez. Mas ela só disse que não gostava, com tranquilidade, sem raiva, sem escândalos, simplesmente como quem diz que não gosta de vida. “Não gosto de cheiro de flor”, a frase despetalava minha ideia, enquanto descíamos para ver a Plaza de Mayo e escutávamos mais resmungos da mulher e também do homem que estava com ela. “Meu Deus, que frio, meu Deus, como as coisas estão caras, meu Deus, que demora para descer do ônibus” – eles diziam. E eu pensava: meu Deus, por que não olham pela janela, meu Deus, por que não beijam na boca, meu Deus, por que não param de amolar Deus e aproveitam o dia? À noite, deitado na cama, fiquei pensando ainda mais. Quem sabe o cheiro das flores joga na cara daqueles dois toda a vida que eles não vivem? De fato, não é fácil sentir cheiro de vida perdida. Ah, o casal era também nosso vizinho de porta, no hotel. Não fomos de excursão, mas compramos o mesmo pacote que ambos. Sim, eles tinham o mesmo pacote, mas uma forma tão diferente de desembrulhá-lo... Depois que constatei isso, tive vontade de mandar para eles uns alfajores, um vinho e um texto pervertido da (escritora francesa) Anaïs Nïn, para ver se aqueles dois conseguiam encher a cara de sonho, mas não deu tempo. No dia seguinte, eles já estavam de malas nas mãos, partindo para outro lugar. E, antes de seguir para o café da manhã e comer todas as rodelas de pomelo rosado (toranja) do hotel, enquanto via que as malas do casal eram iguais 
e tinham a mesma cor, uma pergunta ficou me perturbando: o que vai na bagagem de quem não gosta de cheiro de flor? Há umas semanas, essa história me veio à memória, quando almocei no Biscui, restaurante que dá cheiro de flor ao meu dia. Sentada à minha frente, uma moça pediu ao gentil garçom Fábio: “Por favor, eu gostaria de uma água com gás e um pouco de gelo espremido... Me desculpe, gostaria de um limão espremido”, ela se corrigiu. E eu pensava, não se desculpe por essa beleza que você acabou de criar, não se desculpe, que eu vou passar a vida com inveja de você por nunca antes ter feito esse pedido. Na saída, a moça estava ao meu lado, na fila do caixa. Perguntei o seu nome, falei da minha inveja incontida, revelei que eu contaria essa história numa crônica, e ela riu da própria criação. “Foi sem querer que eu disse isso, mas logo depois eu vi que um gelo espremido não tinha sentido”, constatou a Meli. Não sei se é assim que se escreve o seu nome. Só sei que disse a ela que as coisas mais belas muitas vezes nascem sem querer e que a poesia não é para ter sentido. A poesia, que está disponível para nós, à nossa volta, é para provocar os sentidos, eu diria hoje à Meli, que depois saiu do restaurante puxando uma mala de rodinhas. Para onde a poesia mais me puxa? Por onde eu mais gosto de puxá-la? Para onde a vida mais tem puxado a Meli? Depois daquela experiência, fiquei com urgência de ir a um restaurante, só para puxar uma cadeira e pedir um copo de gelo espremido. Pensar em gelos espremidos me deu desejo de reler uma entrevista que fiz na década de 90 com o (escritor) Manoel de Barros, por conta do seu livro Exercícios de Ser Criança (Salamandra). Nessa entrevista, o poeta me disse que criar imagens e metáforas é uma maneira de aumentar o mundo e me explicou por que as crianças sabem fazer isso tão bem. “Se digo que me enferrujei de lata, criei uma coisa nova. Criei um ser humano que fica enferrujado, que nem um prego. As crianças criam essas imagens porque ignoram prescrições e regulamentos do sério. A criança não sabe o comportamento das coisas. E pode inventar. Pode botar aflição nas pedras, e assim por diante. Ela não sabe se pedra tem aflição, por isso cria”, me escreveu o Manoel, à máquina, com remendos feitos à mão. Por que será que pensar em remendos feitos à mão me amansa tanto e me dá tanta gana de desordem? “O gosto pela liberdade se manifesta nas desobediências. Andar de costas na chuva é sinal de liberdade”, Manoel também me disse nessa entrevista. Na praça perto de casa, em Copacabana, num fim de tarde, vi uma menina de 6 anos que andava em zigue-zague, seguindo os desenhos das pedras, ou as aflições delas, quem sabe? Mas logo a mãe pisou na asa da filha: “Anda direito, Marcela!” E a menina passou a andar em linha reta, sem curvas, sem surpresas, sem criar imagens, de cabeça baixa. Que cena... Será que a Marcela jamais vai andar de costas na chuva? Tomara que ande, tomara que ande. Imagino a Marcela daqui a 30 anos fazendo um curso para reaprender a entortar os passos, subverter mesmices, viver e trabalhar com criatividade e honestidade intelectual. Acho que só quando desobedecemos é que criamos algo realmente nosso e exercitamos a nossa autenticidade. Também acredito que nem toda pessoa autêntica é feliz, mas que toda pessoa feliz, de alguma forma, é autêntica. No entanto, por medo de sermos rejeitados, criticados, corrigidos, censurados e esquecidos, passamos a vida presos a regulamentos do sério, abrimos mão dos nossos zigue-zagues mais íntimos, e deixamos de olhar, agir e pensar com originalidade. É assim que nos afastamos da fantasia e de tudo o que ela tem de mais humano, transformador, apetitoso, revelador, essencial. “PARE, OLHE, ESCUTE”, me manda a placa da estação ferroviária, à beira de um trilho, numa cidade do interior de São Paulo onde estive outro dia. Num mundo cada vez mais cheio de pressa, olhos embaçados, ruídos, e cobranças pragmáticas, obedecer à placa de uma pequena estação de trem é uma transgressão irresistível

MÁRCIO VASSALLO é jornalista e escritor carioca, autor de uma porção de livros cheios de reparos e dá cursos de escrita por aí.

Uniso solicitará a abertura de curso de Medicina para o MEC

José Antonio Rosa - joseantonio.rosa@jcruzeiro.com.br
 A Santa Casa deverá ser transformada em um hospital escola, num acordo com a Universidade de Sorocaba (Uniso) que irá, na etapa seguinte, requerer ao Ministério da Educação a abertura de um segundo curso de medicina no município, informou nesta terça (19) o reitor da instituição, Fernando de Sá Del Fiol durante coletiva de imprensa. A reunião foi no auditório da Santa Casa.

Alunos dos oito cursos da área de saúde hoje oferecidos pela instituição (enfermagem; farmácia; odontologia; nutrição; fisioterapia; biomedicina; terapia ocupacional e ciência biológicas) serão aproveitados a partir de janeiro de 2018 como estagiários em seus respectivos setores na Santa Casa.

Del Fiol, que conversou com a imprensa acompanhado do arcebispo metropolitano de Sorocaba, dom Julio Endi Akamine, e o presidente do Conselho de Administração da Irmandade da Santa Casa de Sorocaba, padre Flávio Jorge Miguel Júnior, disse que a ação deverá contar, num primeiro momento, com cerca de 60 alunos dos cursos hoje disponibilizados pela Uniso.

Esse contingente deverá reforçar os quadros do hospital e apoiar o atendimento aos usuários que, segundo dito durante o contato com os jornalistas, ganhará em agilidade e melhoria. As regras para cumprimento do estágio determinam que os estudantes sejam monitorados por professores habilitados para prestar assistência.

O projeto não deverá implicará custo para as partes, embora o arcebispo dom Julio tenha declarado em sua intervenção que a situação do hospital, em razão das gestões anteriores, não seja das melhores. Ainda sobre as finanças da instituição, o presidente do Conselho de Administração, padre Flávio Jorge Miguel Junior, informou que na próxima semana serão divulgados números que dimensionam o déficit da Santa Casa.

Faculdade

Em relação à nova Faculdade, Del Fiol informou que se reunirá em Brasília com o ministro Mendonça Filho a quem apresentará estudos que comprovam a viabilidade e a necessidade da instalação de mais uma escola para formação de médicos. A região de Sorocaba, disse, é a segunda no Estado de São Paulo com a menor proporção entre vagas em cursos de medicina por habitantes.

Além disso, tem uma demanda das maiores. Esses são dois dos critérios considerados para a aprovação e criação de novos cursos. Conforme Del Fiol, a partir do levantamento, o MEC abrirá edital ao qual podem se inscrever organizações que queiram implantar a faculdade.

A Uniso, dada à sua estrutura e a fatores como já estar funcionando na cidade, teria mais chances de encampar o projeto. O trâmite do processo, entretanto, leva tempo e até por isso o reitor não soube estabelecer um prazo para que a ideia se concretize. Se os estudos forem aprovados, ele avalia que em um ano o Ministério possa dar início ao chamamento. As etapas seguintes compreendem elaboração de mais projetos e cumprimento de normas para o funcionamento do curso. A faculdade também deverá abrir o programa de residência médica no hospital. Todas as iniciativas são de médio e longo prazo.

domingo, 10 de setembro de 2017

Outubro Amarelo- Combate à Depressão

Hoje participei de ações sobre o combate à depressão, no Parque Campolim. Foi tudo maravilhosooo!!










Mais de 100 motos antigas estarão na 4ª Expo Museu Sorocabano 2 Rodas

Equipe Online - online@jcruzeiro.com.br
 Modelos raros de motocicleta estarão expostos na 4ª Expo Museu Sorocabano 2 Rodas, que acontecerá nos dias 30 de setembro e 1º de outubro, no Instituto Humberto de Campos (IHC), das 9h às 17h. Para o evento, cuja renda será destinada às atividades da entidade que atende mais de 250 crianças e adolescentes da cidade, será montada também uma estrutura completa de alimentação e espaços kids, barbearia, estúdio de tatuagens e apresentações de bandas de rock. A exposição deverá reunir mais de 100 exemplares de décadas e nacionalidades diferentes e é organizada por uma parceria entre o IHC e o Grupo Desafiando os Limites.
 
De acordo com Ivaldo Oliveira, membro do Grupo Desafiando os Limites, os destaques da exposição serão as clássicas motos japonesas da década de 70, com motorização variando de 50 a 1.050 cilindradas, além de raros exemplares da década de 1910 e de países como Bielorrússia, Tchecoslováquia e Alemanha. Ele acrescenta que também serão expostas cerca de 40 bicicletas antigas e que donos de motos clássicas e antigas, que não são do acervo do museu, poderão exibi-las num espaço destinado somente para isso.
 
O presidente do IHC, Paulo Baccelli, destaca que o evento possui cunho social. Toda a renda dos ingressos e parte do que for obtido pelos setores de comida, serviços e estacionamento, será revertido para a entidade. Atualmente o IHC presta assistência a 250 crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos de idade. Entre as atividades mantidas estão cursos de judô, dança, teatro e alimentação, além de aulas aos pais para a geração de renda, como fabricação de sabão.
 
As entradas custam R$ 5 ou R$ 10 (valor que inclui estacionamento para moto). Haverá também estacionamento para carros, com valor de R$ 10. O Instituto Humberto de Campos fica na rua Rosa Maria de Oliveira, 33, Jardim Zulmira, próximo ao Corpo de Bombeiros da zona oeste. Mais informações pelo (15) 3202-8710. (Da Redação)

Projeto multimídia sobre comunidades quilombolas é premiado pelo Iphan

Felipe Shikama - felipe.shikama@jcruzeiro.com.br
 
Realizado em 60 comunidades quilombolas de Minas Gerais, o projeto Quilombos do Vale do Jequitinhonha: Música e Memória foi vencedor da 30ª Edição do Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, concedido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Por trás do projeto multimídia, condecorado com a principal premiação voltada a iniciativas de preservação do patrimônio cultural do Brasil, está o jornalista sorocabano Sérgio Fogaça, que coordena a iniciativa ao lado da também jornalista e historiadora Evanize Sydow.
 
"É um reconhecimento muito importante, porque é tão difícil conseguir realizar e finalizar um projeto desse porte que a gente se sente muito feliz", comenta Fogaça, radicado em São Paulo, mas que sempre que possível retorna à sua cidade natal para passar os finais de semana com seus familiares.
 
Sérgio assina a coordenação dos textos do e-book, um dos produtos do projeto, e também faz parte da equipe de sete documentaristas que, ao longo de três anos, percorreram 60 comunidades quilombolas dos municípios de Berilo, Chapada do Norte, Minas Novas e Virgem da Lapa registrando a música e a história preservada oralmente pelos remanescentes de quilombo da região.
 
Além do livro ilustrado, em formato digital, o projeto multimídia consiste em um conjunto de 30 vídeos de curta-metragem e um rico banco de imagens. Todo o material está disponível para download gratuito no site www.quilombosdojequitinhonha.com.br.
 
Segundo o jornalista sorocabano, mais de 1.200 pessoas participaram do projeto cantando, dançando e rememorando suas histórias e a de seus antepassados. O projeto também registrou as manifestações culturais preservadas nessas comunidades, como encontros religiosos e festas tradicionais, algumas realizadas há mais de 200 anos. "Foram captadas cerca de 150 horas em vídeo", afirma.
 
O projeto foi realizado pela Nota Musical Comunicação e Mirar Lejo, com patrocínio de empresas privadas por meio da Lei Rouanet.
 
Diversidade cultural brasileira
 
Sérgio Fogaça relata que a expedição pelas comunidades quilombolas mineiras lhe abriu novas perspectivas sobre a riqueza de diversidade cultural do Brasil. "A gente fica encantado e instigado a levantar outras histórias, de outras comunidades, inclusive na região de Sorocaba, onde eu tenho uma ligação muito forte. A gente passa a ter uma noção maior do quanto esse país é rico e do quanto é importante manter essas tradições e resguardar essa história que está se perdendo", comenta.
 
A imersão nas comunidades do Vale do Jequitinhonha, afirma ele, ainda contribuiu para o aperfeiçoamento das técnicas de entrevista sobre a história oral e de apuração da documentação das diferentes manifestações culturais encontradas que, segundo ele, poderão ser replicadas em várias outras comunidades tradicionais do país. "O maior desafio é conseguir levantar recursos financeiros [públicos e privados] para fazer expedição, mas o reconhecimento do Iphan, por sua importância, prova que vale a pena. Eu, pessoalmente, tenho muita vontade de pesquisar a cultura caipira na nossa região ", complementa.
 
Embora esteja presente no subtítulo do projeto, a música -- representada em ritmos diversos como o congado, a roda e a maromba -- não foi o elemento central da pesquisa do grupo, mas serviu de "elemento agregador forte" que, segundo Sérgio, é capaz de preservar e transmitir oralmente a tradição da culinária, das danças e dos folguedos. "O foco na música se deve ao fator agregador e identitário que esta traz às comunidades quilombolas, daí a necessidade da preservação de suas tradições musicais e de dança".
 
O material, fruto do premiado projeto "Quilombos do Vale do Jequitinhonha: Música e Memória", será transformado em uma exposição que estará em cartaz na Fundação Cultural Palmares de Brasília, em novembro, em homenagem ao Mês da Consciência Negra. Em seguida, a mostra terá itinerância por cidades de Minas Gerais.
 
Já o livro em formato físico, cujo lançamento oficial ocorreu nas próprias comunidades quilombolas pesquisadas, está sendo distribuído gratuitamente a bibliotecas públicas do País -- a Biblioteca Municipal Guilherme Senger, de Sorocaba, possui exemplares. "Eles ficaram muito felizes porque esse trabalho acaba sedimentando sua cultura. É importante perpetuar [em documentos] para que a cultura mantenha viva. Não apenas nas prateleiras das bibliotecas, mas viva de verdade. Acho que esse material aumenta a autoestima e faz com que eles tenham ainda mais orgulho de preservar as suas tradições", conclui.

Palhaço do filme "It" interage com os fãs em shopping de Sorocaba

Equipe Online - online@jcruzeiro.com.br
 Depois do sucesso com a presença da personagem Anabelle no cinema, é a vez do palhaço do filme It - A coisa! marcar presença no hall do cinema do Pátio Cianê Shopping. O personagem, inspirado em um dos livros de Stephen King, já esteve presente na pré-estreia, dia 6, mas interage novamente com os fãs de terror na próxima quarta-feira, dia 13, antes das sessões das 20h45 e 21h15. Para os mais corajosos, também será possível assistir à sessão das 21h15 ao lado do personagem. Os ingressos serão limitados.
 
Interpretada pelo ator e produtor do segmento de terror Paulo Navas, a ação será realizada pela empresa Navart Entretenimento com exclusividade no cinema sorocabano. Quem não deseja ver o personagem pode ficar tranquilo, afinal, o evento será restrito à área do cinema e somente no horário próximo à exibição do filme.

domingo, 3 de setembro de 2017

A menininha de chapéu

Era só um chapéu esquecido em uma gaveta das minhas memórias. Em 2008 mudei-me para São Paulo com intuito de curtir a capital paulista e para isso tive o enorme privilégio de morar na casa de uma família judia. Aos poucos fui me aconchegando com a dona da casa, Steffi Loeb e seu filho Daniel, que foram muito gentis e solícitos ao abrirem as portas de sua casa(e a do coração principalmente).
Tudo era tão novo e interessante para mim, saia muito para conhecer museus e pontos turísticos e sobretudo, o famoso bairro Bom Retiro, onde muitas vezes eu ia comer Burekas e Varenikes, na casa Búlgara. Ah, eu me deliciava!
Cresci lendo os livros sobre o holocausto e ao me instalar na casa do Dani, minha intenção era saber um pouco mais sobre os judeus e sua cultura. Ficava maravilhada ao entrar no Centro da Cultura Judaica, próximo ao metrô Sumaré, eu passava horas por lá e quando voltava ia direto conversar com Dona Steffi sobre o que via e o que não via também(risos)...sinto muita saudade da sua risada, sua voz jovial e as histórias...Nossa, tem coisas que nada apaga de nossa memória e o coração reclama de tempos em tempos.
 O fato é que, às terças-feiras, eu tinha folga  da escola e enquanto o Dani, fazia treinamento em Ibiúna, eu ia ficar com sua mãe até que ele chegasse e nessas visitas ela contava-me histórias sobre o que lembrava da Alemanha, na época do Hitler e sobre como teve que sair de lá para não ser mandada ao campo de concentração. Uma dessas histórias tinha um protagonista muito peculiar: um chapéu.
Era uma manhã fria na Alemanha e Dona Steffi era ainda uma menininha  de aproximadamente cinco anos que estava na estação de trem, com sua família, aguardando embarque. Estavam deixando o país para recomeçar a vida no Uruguai ou Argentina, tenho alguns lapsos de memória do efeito do hipotireoidismo. Todos os adultos estavam tensos, não foi fácil para a menininha de chapéu deixar seu país. O tempo ia correndo e os corações iam ficando aflitos a cada minuto que escapavam despercebidos...ia tudo muito bem até a chegada de um policial. Chegou e revistou toda a família e quando chegou a vez da menininha de chapéu ela deixou que a revistassem, nada podia escapar...terminada a revista ela olhou para o policial e perguntou:
_ E o meu chapéu? Não vai olhar debaixo do meu chapéu?
O policial olhou sério para ela e nada falou.
Quando ela terminava a história riamos muito. Hoje já o riso não é tão fácil, algo aperta a minha garganta, deve ser a saudade.
Deixei São Paulo há um tempo e junto ficou uma parte boa de minha vida com eles. Dona Steffi, já não está mais neste plano, definitivamente mora agora dentro do meu coração.

Dani, esta semana será seu aniversário e espero que goste de relembrar comigo um pouquinho dos bons tempos. Beijos e um super Parabéns!!
JULIANA CRUZ


Não duvide das pessoas que foram quebradas pela vida!

Marcel Camargo
Marcel Camargo

“Gosto das pessoas que foram quebradas pela vida, existe uma beleza única nas suas rachaduras.” (Zack Magiezi)

É complicado tentar comparar ou mensurar sofrimento, porque as pessoas recebem e digerem o que vem da vida, conforme aquilo que possuem dentro delas; trata-se de algo muito pessoal. A dimensão que os acontecimentos tomam depende da forma como cada um encara o mundo, dos valores e crenças que carrega, independentemente de qualquer outra coisa. Talvez a dor seja proporcionalmente mais intensa, quanto maior a quantidade de expectativas que ela quebre.
As pessoas reagem de forma diferente aos mesmos acontecimentos, com maior ou menor intensidade. Ademais, certos indivíduos externam o que sentem sem pestanejar, enquanto outros prendem mais fortemente, somente para si, as escuridões que seu íntimo enfrenta.

Por essa razão é que se torna um tanto quanto injusto compararmos as dores das pessoas tão somente nos baseando no que elas nos mostram. Dentro de muitos, há tempestades dolorosas se formando.

Embora não possamos comparar o sofrimento, ao menos conseguimos discernir que certos acontecimentos machucam muito, de uma forma avassaladora, retirando o chão de qualquer um. Existem tragédias que sequer imaginamos em nossas vidas, tais como a perda de um filho, a perda de todo um patrimônio, uma deformação física abrupta, uma doença terminal, condições adversas extremas. Infelizmente, ninguém está livre de ter de enfrentar a perda do que lhe é vital.