A serventia do encantamento no dia a dia
O cotidiano está cheio de descobertas e prazeres, mas precisamos saber reconhecê-los. Isso nos ajuda a ter uma vida mais feliz e a encontrar poesia onde antes parecia existir apenas cinza
Revista: VIDA SIMPLES
Há pouco tempo soube pelos jornais que apareceria uma superlua e
que ela seria a maior de todas em 68 anos. Será mesmo? Não tenho medidor
de lua, mas a manchete de um portal dizia assim: “Quer registrar a
superlua de hoje no seu celular? Veja aqui dez dicas”. Dez dicas para
ver da mesma forma o que todo mundo acha que está vendo? Registrar a Lua
no celular, em vez de olhar na cara dela? Que cansaço me deu pensar em
selfies lunares... A Lua é súper todos os dias, mesmo quando não usa
capa nem ganha manchetes nos jornais. É só botar reparo nela. Porém,
para isso precisamos reaprender a sentir sem pressa tudo o que está à
nossa volta. E, apesar de todos os embrutecimentos que nos cercam, acho
que passar o dia todo sem ver, sem escutar, sem provar, sem cheirar, sem
tocar o mundo, e sem permitir que ele nos toque, nos afete, nos
desarrume por dentro, é viver sem sentido nenhum. Nesse sentido, há mais
de 20 anos, tenho viajado por todas as regiões do Brasil para falar da
serventia do encantamento na vida da gente. Um dia, eu rabiscava algo
sobre isso, antes de uma viagem. Dentro do avião, vi que quase todas as
pessoas conversavam ao telefone, mandavam mensagens, batiam fotos,
balançavam a cabeça com seus fones no ouvido. Mas não me senti tão
sozinho quando reparei que uma mulher escrevia a lápis em uma folha de
papel almaço e parava para contemplar o movimento dos passageiros e das
comissárias. Nem sabia que ainda existem pessoas que escrevem a lápis em
folhas de papel almaço. Senti vontade de saber o que ela tanto escrevia
enquanto olhava, e o que tanto olhava enquanto escrevia. Entretanto, na
maioria das vezes, imaginar me tenta ainda mais do que saber. Para dar
um pouco de descanso na imaginação, olhei pela janela, mas quase tive um
troço quando li o que eu já havia lido tantas vezes, sem parar para
refletir. Estava escrito lá: NÃO PISE NA ASA. E eu não sabia o que fazer
com aquela perturbação. Afinal, eu pensava, para quem será que
escreveram um aviso tão desatinado? Para um pelicano alfabetizado? Para
um anjo leitor? Para uma alienígena viciada em pisadas de asa? Pensei em
pedir à aeromoça que clareasse o meu tormento, mas achei que ela também
poderia entrar em parafuso e espalhar desnorteio entre os passageiros.
Ao meu lado, um homem fotografava a própria tela do computador, e a tela
estava cheia de gráficos ainda mais assustadores que aviso para
pelicano. Então tive mesmo que conviver sozinho com aquela frase, até o
avião pousar. Dias depois, jantando com um velho amigo, perguntei se já
havia reparado naquela história de não pisar na asa, e ele, rindo da
minha angústia, me explicou: “Rapaz, não é possível que você não
saiba... esse lembrete é para os caras da manutenção não pisarem naquele
local específico, enquanto estiverem trabalhando”. Naquele momento,
disse ao meu amigo: “Muito obrigado, você acaba de pisar na minha asa”.
Esse episódio me leva a um poema do Mario Quintana chamado Crenças,
publicado no livro Velório sem Defunto (Alfaguara). “Seu Glicínio
porteiro acredita que rato, depois de velho, vira morcego / É uma crença
que ele traz da sua infância. / Não o desiludas com o teu vão saber. /
Não o esclareça dos seus queridos enganos. / Não se deve tirar o
brinquedo de uma criança. / Tenha ela oito ou oitenta anos.” Seu
Glicínio porteiro me faz pensar: para que servem essas explicações de
tirar brinquedo? Qual o gosto de passar uma caneta vermelha na fantasia
alheia? Quantas vezes será que pisamos na asa de alguém com o nosso vão
saber? Na realidade, mais do que tudo, acho que só tiramos o brinquedo
de alguém quando não conseguimos enxergar a nossa própria asa, tão
atrofiada por falta de uso. E, se não enxergamos a nossa própria asa,
como vamos enxergar a asa do outro? Quantas vezes também será que nós
pisamos, abrindo mão dos nossos desejos mais simples, mais legítimos,
mais autênticos? No rastro dessas perguntas, há dois anos, passei uns
dias com o meu filho, Gabriel, em Buenos Aires, capital portenha.
Chegamos lá com roteiros que amigos nos fizeram de tudo o que não
poderíamos deixar de conhecer, e realmente conhecemos lugares
deliciosos, mas gostamos ainda mais de nos perder pela cidade, flanando,
sem roteiros, sem mapas, de café em café, de uma praça a outra, de cena
em cena, de pessoa em pessoa. Foram dias feitos de conversas, sentidos,
silêncios, reparos. E, no meio
de um desses reparos,
quando estávamos prestes a fazer um passeio de ônibus pela cidade,
escutamos um casal que conversava atrás de nós. Palavras da mulher,
enquanto entrávamos no ônibus: “Ai, que cheiro de flor... Não gosto de
cheiro de flor”. Ao meu lado, já sentado, Gabriel comentou a frase:
“Dizer que não gosta de cheiro de flor é o mesmo que dizer que não gosta
de vida, não acha? Para mim, foi pior que se ela dissesse: ‘Eu detesto
cheiro de flor’. Eu acho que não gostar é pior que detestar”, me disse o
meu filho, na época com 14 anos. Concordei com ele. Se ela dissesse que
detesta cheiro de flor, poderia estar num mau dia, aborrecida por algum
acontecimento, movida por alguma emoção de destrambelhar lucidez. Mas
ela só disse que não gostava, com tranquilidade, sem raiva, sem
escândalos, simplesmente como quem diz que não gosta de vida. “Não gosto
de cheiro de flor”, a frase despetalava minha ideia, enquanto descíamos
para ver a Plaza de Mayo e escutávamos mais resmungos da mulher e
também do homem que estava com ela. “Meu Deus, que frio, meu Deus, como
as coisas estão caras, meu Deus, que demora para descer do ônibus” –
eles diziam. E eu pensava: meu Deus, por que não olham pela janela, meu
Deus, por que não beijam na boca, meu Deus, por que não param de amolar
Deus e aproveitam o dia? À noite, deitado na cama, fiquei pensando ainda
mais. Quem sabe o cheiro das flores joga na cara daqueles dois toda a
vida que eles não vivem? De fato, não é fácil sentir cheiro de vida
perdida. Ah, o casal era também nosso vizinho de porta, no hotel. Não
fomos de excursão, mas compramos o mesmo pacote que ambos. Sim, eles
tinham o mesmo pacote, mas uma forma tão diferente de desembrulhá-lo...
Depois que constatei isso, tive vontade de mandar para eles uns
alfajores, um vinho e um texto pervertido da (escritora francesa) Anaïs
Nïn, para ver se aqueles dois conseguiam encher a cara de sonho, mas não
deu tempo. No dia seguinte, eles já estavam de malas nas mãos, partindo
para outro lugar. E, antes de seguir para o café da manhã e comer todas
as rodelas de pomelo rosado (toranja) do hotel, enquanto via que as
malas do casal eram iguais
e tinham a mesma cor, uma
pergunta ficou me perturbando: o que vai na bagagem de quem não gosta de
cheiro de flor? Há umas semanas, essa história me veio à memória,
quando almocei no Biscui, restaurante que dá cheiro de flor ao meu dia.
Sentada à minha frente, uma moça pediu ao gentil garçom Fábio: “Por
favor, eu gostaria de uma água com gás e um pouco de gelo espremido...
Me desculpe, gostaria de um limão espremido”, ela se corrigiu. E eu
pensava, não se desculpe por essa beleza que você acabou de criar, não
se desculpe, que eu vou passar a vida com inveja de você por nunca antes
ter feito esse pedido. Na saída, a moça estava ao meu lado, na fila do
caixa. Perguntei o seu nome, falei da minha inveja incontida, revelei
que eu contaria essa história numa crônica, e ela riu da própria
criação. “Foi sem querer que eu disse isso, mas logo depois eu vi que um
gelo espremido não tinha sentido”, constatou a Meli. Não sei se é assim
que se escreve o seu nome. Só sei que disse a ela que as coisas mais
belas muitas vezes nascem sem querer e que a poesia não é para ter
sentido. A poesia, que está disponível para nós, à nossa volta, é para
provocar os sentidos, eu diria hoje à Meli, que depois saiu do
restaurante puxando uma mala de rodinhas. Para onde a poesia mais me
puxa? Por onde eu mais gosto de puxá-la? Para onde a vida mais tem
puxado a Meli? Depois daquela experiência, fiquei com urgência de ir a
um restaurante, só para puxar uma cadeira e pedir um copo de gelo
espremido. Pensar em gelos espremidos me deu desejo de reler uma
entrevista que fiz na década de 90 com o (escritor) Manoel de Barros,
por conta do seu livro Exercícios de Ser Criança (Salamandra). Nessa
entrevista, o poeta me disse que criar imagens e metáforas é uma maneira
de aumentar o mundo e me explicou por que as crianças sabem fazer isso
tão bem. “Se digo que me enferrujei de lata, criei uma coisa nova. Criei
um ser humano que fica enferrujado, que nem um prego. As crianças criam
essas imagens porque ignoram prescrições e regulamentos do sério. A
criança não sabe o comportamento das coisas. E pode inventar. Pode botar
aflição nas pedras, e assim por diante. Ela não sabe se pedra tem
aflição, por isso cria”, me escreveu o Manoel, à máquina, com remendos
feitos à mão. Por que será que pensar em remendos feitos à mão me amansa
tanto e me dá tanta gana de desordem? “O gosto pela liberdade se
manifesta nas desobediências. Andar de costas na chuva é sinal de
liberdade”, Manoel também me disse nessa entrevista. Na praça perto de
casa, em Copacabana, num fim de tarde, vi uma menina de 6 anos que
andava em zigue-zague, seguindo os desenhos das pedras, ou as aflições
delas, quem sabe? Mas logo a mãe pisou na asa da filha: “Anda direito,
Marcela!” E a menina passou a andar em linha reta, sem curvas, sem
surpresas, sem criar imagens, de cabeça baixa. Que cena... Será que a
Marcela jamais vai andar de costas na chuva? Tomara que ande, tomara que
ande. Imagino a Marcela daqui a 30 anos fazendo um curso para
reaprender a entortar os passos, subverter mesmices, viver e trabalhar
com criatividade e honestidade intelectual. Acho que só quando
desobedecemos é que criamos algo realmente nosso e exercitamos a nossa
autenticidade. Também acredito que nem toda pessoa autêntica é feliz,
mas que toda pessoa feliz, de alguma forma, é autêntica. No entanto, por
medo de sermos rejeitados, criticados, corrigidos, censurados e
esquecidos, passamos a vida presos a regulamentos do sério, abrimos mão
dos nossos zigue-zagues mais íntimos, e deixamos de olhar, agir e pensar
com originalidade. É assim que nos afastamos da fantasia e de tudo o
que ela tem de mais humano, transformador, apetitoso, revelador,
essencial. “PARE, OLHE, ESCUTE”, me manda a placa da estação
ferroviária, à beira de um trilho, numa cidade do interior de São Paulo
onde estive outro dia. Num mundo cada vez mais cheio de pressa, olhos
embaçados, ruídos, e cobranças pragmáticas, obedecer à placa de uma
pequena estação de trem é uma transgressão irresistível
MÁRCIO VASSALLO é jornalista e escritor carioca, autor de uma porção de livros cheios de reparos e dá cursos de escrita por aí.
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