domingo, 10 de setembro de 2017

Projeto multimídia sobre comunidades quilombolas é premiado pelo Iphan

Felipe Shikama - felipe.shikama@jcruzeiro.com.br
 
Realizado em 60 comunidades quilombolas de Minas Gerais, o projeto Quilombos do Vale do Jequitinhonha: Música e Memória foi vencedor da 30ª Edição do Prêmio Rodrigo Melo Franco de Andrade, concedido pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Por trás do projeto multimídia, condecorado com a principal premiação voltada a iniciativas de preservação do patrimônio cultural do Brasil, está o jornalista sorocabano Sérgio Fogaça, que coordena a iniciativa ao lado da também jornalista e historiadora Evanize Sydow.
 
"É um reconhecimento muito importante, porque é tão difícil conseguir realizar e finalizar um projeto desse porte que a gente se sente muito feliz", comenta Fogaça, radicado em São Paulo, mas que sempre que possível retorna à sua cidade natal para passar os finais de semana com seus familiares.
 
Sérgio assina a coordenação dos textos do e-book, um dos produtos do projeto, e também faz parte da equipe de sete documentaristas que, ao longo de três anos, percorreram 60 comunidades quilombolas dos municípios de Berilo, Chapada do Norte, Minas Novas e Virgem da Lapa registrando a música e a história preservada oralmente pelos remanescentes de quilombo da região.
 
Além do livro ilustrado, em formato digital, o projeto multimídia consiste em um conjunto de 30 vídeos de curta-metragem e um rico banco de imagens. Todo o material está disponível para download gratuito no site www.quilombosdojequitinhonha.com.br.
 
Segundo o jornalista sorocabano, mais de 1.200 pessoas participaram do projeto cantando, dançando e rememorando suas histórias e a de seus antepassados. O projeto também registrou as manifestações culturais preservadas nessas comunidades, como encontros religiosos e festas tradicionais, algumas realizadas há mais de 200 anos. "Foram captadas cerca de 150 horas em vídeo", afirma.
 
O projeto foi realizado pela Nota Musical Comunicação e Mirar Lejo, com patrocínio de empresas privadas por meio da Lei Rouanet.
 
Diversidade cultural brasileira
 
Sérgio Fogaça relata que a expedição pelas comunidades quilombolas mineiras lhe abriu novas perspectivas sobre a riqueza de diversidade cultural do Brasil. "A gente fica encantado e instigado a levantar outras histórias, de outras comunidades, inclusive na região de Sorocaba, onde eu tenho uma ligação muito forte. A gente passa a ter uma noção maior do quanto esse país é rico e do quanto é importante manter essas tradições e resguardar essa história que está se perdendo", comenta.
 
A imersão nas comunidades do Vale do Jequitinhonha, afirma ele, ainda contribuiu para o aperfeiçoamento das técnicas de entrevista sobre a história oral e de apuração da documentação das diferentes manifestações culturais encontradas que, segundo ele, poderão ser replicadas em várias outras comunidades tradicionais do país. "O maior desafio é conseguir levantar recursos financeiros [públicos e privados] para fazer expedição, mas o reconhecimento do Iphan, por sua importância, prova que vale a pena. Eu, pessoalmente, tenho muita vontade de pesquisar a cultura caipira na nossa região ", complementa.
 
Embora esteja presente no subtítulo do projeto, a música -- representada em ritmos diversos como o congado, a roda e a maromba -- não foi o elemento central da pesquisa do grupo, mas serviu de "elemento agregador forte" que, segundo Sérgio, é capaz de preservar e transmitir oralmente a tradição da culinária, das danças e dos folguedos. "O foco na música se deve ao fator agregador e identitário que esta traz às comunidades quilombolas, daí a necessidade da preservação de suas tradições musicais e de dança".
 
O material, fruto do premiado projeto "Quilombos do Vale do Jequitinhonha: Música e Memória", será transformado em uma exposição que estará em cartaz na Fundação Cultural Palmares de Brasília, em novembro, em homenagem ao Mês da Consciência Negra. Em seguida, a mostra terá itinerância por cidades de Minas Gerais.
 
Já o livro em formato físico, cujo lançamento oficial ocorreu nas próprias comunidades quilombolas pesquisadas, está sendo distribuído gratuitamente a bibliotecas públicas do País -- a Biblioteca Municipal Guilherme Senger, de Sorocaba, possui exemplares. "Eles ficaram muito felizes porque esse trabalho acaba sedimentando sua cultura. É importante perpetuar [em documentos] para que a cultura mantenha viva. Não apenas nas prateleiras das bibliotecas, mas viva de verdade. Acho que esse material aumenta a autoestima e faz com que eles tenham ainda mais orgulho de preservar as suas tradições", conclui.

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