Fonte: Jornal Cruzeiro do Sul
Viver em Sorocaba durante a ditadura militar (1964-1985) era estar sob constante vigilância. Uma reunião de bairro, uma missa, um culto, uma celebração entre amigos e, principalmente, encontros sindicais e políticos poderiam ser alvo de investigação do temido Dops (Departamento de Ordem Política e Social), o órgão de repressão do governo. Em Sorocaba, ao menos 1.250 pessoas foram monitoradas, fichadas, detidas para prestar depoimento ou presas. Eram sindicalistas, políticos, religiosos, empresários, estudantes, professores, líderes comunitários, artistas e operários. Ser membro de uma associação, sindicato, agremiação ou diretório estudantil era um caminho certo para ser visto como suspeito, e ter a vida investigada pelo governo. Além de personalidades conhecidas da cidade, como Aldo Vannucchi, o ex-vereador Osvaldo Noce e a líder operária Salvadora Lopes, muitas pessoas anônimas entraram no radar do Dops, sem sequer suspeitar que eram vigiadas, citadas em documentos e tinham suas vidas vasculhadas pelos agentes da repressão.
Meio século depois daquele que foi considerado um marco no recrudescimento da repressão -- a Constituição de 1967, que institucionalizou o regime militar, ampliando o controle sobre o Legislativo, o Judiciário e a sociedade civil --, o Cruzeiro do Sul realizou uma ampla pesquisa nos documentos, fichas e dossiês do Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops-SP), abertos à consulta pública na internet desde 2013. Muito mais do que as informações que contêm, esses documentos são um testemunho histórico de como é viver em um país onde o simples fato de discordar, ou não rezar pela cartilha imposta pelo regime, faz de um cidadão comum um inimigo de Estado. Eles demonstram como agia o Deops e como as pessoas, em sua maioria anônimas e inofensivas, eram vigiadas, fichadas, presas e torturadas em Sorocaba, assim como em todo o Brasil. Entre pesquisas, apurações, entrevistas e produção de textos foram 22 dias.
O Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops-SP) foi criado em 1924, para reprimir e prevenir ações que pudessem ser consideradas delitos contra a ordem e a segurança do Estado. Durante a ditadura militar, cresceu de uma simples delegacia até se tornar um dos braços mais temidos da Polícia Civil do Estado de São Paulo. A extinção do órgão, em 1983, ocorreu na esteira das eleições diretas para governador e o seu arquivo passou para a guarda da Polícia Federal. A falta de permissão para acesso a documentos que tratavam do desaparecimento e morte de vítimas da ditadura militar provocou um amplo debate, envolvendo diferentes setores da sociedade, que resultou na transferência dos arquivos do Deops para o Arquivo Público do Estado em 1991. O arquivo do Deops faz parte do acervo textual público e é formado por aproximadamente 3,5 milhões de documentos, 1.538.000 fichas, 149.917 prontuários e 9.141 dossiês sobre pessoas, partidos políticos, empresas e movimentos sociais de interesse dos órgãos de repressão. Comunistas estavam entre os alvos preferenciais do Deops. Quem fosse fichado no departamento enfrentaria dificuldades para levar uma vida normal e até conseguir emprego, caso o empregador exigisse um atestado expedido pelo órgão, que ficou conhecido como "atestado ideológico".
Conhecido das "óstes policiais"
Um dos documentos, datado de 13 de maio de 1964 investigou e fichou Coaracy José de Souza, que, segundo o Deops, morava na rua Santa Cruz e era ferroviário (trabalhava nas oficinas da Estrada de Ferro Sorocabana). O documento, assinado pelo delegado Francisco Severino Duarte, faz o seguinte relato sobre Coaracy: "à conhecido das óstes policiais a longa data (sic) o sindicado tem se destacado pela agitação social que promoveu não só no seio da classe como também em comícios públicos". Ainda no documento, o órgão afirmava que ele se tratava de um líder ferroviário que teria contribuído de "forma eficiente" para que "eclodisse greves (sic) constantes nos seios dos ferroviários" da EFS. O Deops chegou a investigar toda a vida de Coaracy e documentou, como fato que seria desabonador para o ferroviário, sua participação, no dia 8 de julho de 1960, em um comício pró Jango e Lott (João Goulart, candidato a vice-presidente, e Henrique Teixeira Lott, candidato a presidente), do qual havia participado Luiz Carlos Prestes. "Ele participou ainda de todas as reuniões da classe dos ferroviários, Ouvido em sindicância anterior declarou que não é comunista. Mas há provas de sua militância", relatou o delegado, segundo sua ficha.
Em outro documento, também datado de 1964, o Deops acompanhou os passos de Caetana Martini, anotando até mesmo os horários em que saía e retornava a sua residência. De acordo com pesquisa realizada pelo Cruzeiro do Sul, Caetana nasceu na Itália, descendente de família operária que emigrou para São Paulo. Depois de terminar o curso primário, dedicou-se à profissão de costureira. Sensível às causas populares, com o passar dos anos se tornou presidente da Associação Feminina de Sorocaba. Em sua ficha, o Deops relatou: "Caetana Martini é esposa do chefe comunista nesta cidade, Antônio Martini. É comunista fichada, tendo participado, desde 1962, de vários comícios, sempre na companhia do marido. Além do mais, foi eleita, recentemente, presidente da Associação Feminina de Sorocaba, órgão do Partido Comunista, em cuja sede, sita a rua Padre Luiz, foi apreendido farto material subversivo. Isto porque nessa sede funcionava, clandestinamente, o Partido Comunista. Nos documentos apreendidos, a sindicada figura como elemento de destaque, inclusive fazendo parte de eleições internas para dirigir grupos e etc. Isto basta para qualificá-la."
Operários, políticos, estudantes...
As comemorações alusivas ao dia 1º de maio, Dia do Trabalhador, eram vigiadas e acompanhadas por agentes à paisana. Uma delas, também em 1964, realizada no Largo do Mercado Municipal, foi registrada em um relatório de cinco páginas com detalhes sobre o evento, o nome de todos os participantes que discursaram, suas relações com sindicatos, partidos políticos e até relações familiares. Os discursos, realizados pelo então padre (depois professor e reitor da Uniso) Aldo Vannucchi, o deputado Juvenal de Campos e o vereador Edward Marciano da Silva, conhecido como Edward Fru-Fru, foram transcritos na íntegra pelos agentes ao delegado e encaminhado ao Deops.
Em outros documentos, há uma lista com mais de duzentos nomes de operários da Estrada de Ferro Sorocabana, que, na visão dos agentes da repressão, eram suspeitos de provocar "desordem social". Um dos nomes citados era o de Rene Boschete, pertencente à União dos Ferroviários, e até mesmo uma copeira de uma empresa têxtil, identificada apenas por Maria Aparecida, que, ainda de acordo com o Deops, "sempre era vista em rodas de conversas de mulheres pelas vias de Sorocaba, próximos a comícios". Há ainda nomes de funcionários das empresas têxteis da cidade.
Estudantes também tinham seus passos acompanhados pela polícia. Muitos foram presos. Alguns, torturados e mortos, como o sorocabano Alexandre Vannucchi Leme, em 17 de março de 1973. Ao longo desse período, vários documentos foram produzidos com investigações sobre a relação de estudantes e seus movimentos contrários ao regime. Um dos alvos dos documentos e dossiês estudantis eram os dirigentes, à época, do Centro Acadêmico Rubino de Oliveira, da Faculdade de Direito de Sorocaba.
Em 26 de março 1980, em relatório reservado do Deops de Sorocaba, era informado que o professor e líder da União dos Ferroviários, Antonio R. Figueiredo, e o advogado João Kakimori, estariam manipulando a diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de Sorocaba, presidida por Sidney Soares, e que usariam para esta manipulação os metalúrgicos Juscelino Araújo Silva, Antônio Rodrigues e Manoel Soares. Conforme o documento, os advogados seguiam orientação do deputado estadual Almir Pazzianotto (mais tarde, ministro do Trabalho no governo de José Sarney). Uma das propostas defendidas e aprovadas pelo sindicato era a desvinculação total da Federação da categoria, unindo-se aos sindicatos do ABC e da capital paulista.
Imigrantes e trabalhadores rurais
Entre as fichas policiais de moradores de Sorocaba, boa parte se refere a investigações sobre imigrantes. Sobretudo italianos, espanhóis anarquistas e principalmente as organizações de japoneses eram alvos preferenciais de investigação e prisões por parte do órgão, desde a década de 1950 -- ou seja, antes do regime militar, pois eram oriundos de países "inimigos" do Brasil na Segunda Guerra. A partir de 1964, há um número considerável também de fichados. Existe inclusive um mapeamento de trabalhadores rurais que eram espionados.
De acordo com o levantamento do Deops, Sorocaba possuía em 1964 um total de 5.596 estrangeiros, sendo 3.496 espanhóis, 1.227 italianos, 511 portugueses, 209 sírios, 85 libaneses, 120 argentinos, nove norte-americanos, 36 russos e 97 japoneses, além de 114 alemães.
Entre os estrangeiros que estavam em Sorocaba e que foram presos "para averiguações" e fichados, segundo consta nos documentos do Deops, está Atut Ramaddan, que à época tinha 34 anos. Natural da Jordânia, Atut, segundo sua ficha, foi preso em 1977, "ficando à disposição da Ordem Social". Porém, ficou quatro meses detido e só foi colocado em liberdade no dia 9 de junho. Era tido como subversivo, mas não há referências que comprovassem tal fato.
A família de Toufic Farah, saiu do Líbano no navio Provance, com destino ao Brasil -- mais precisamente em Nova Friburgo, no Estado do Rio de Janeiro --, em 12 de maio de 1952, onde pensavam começar vida nova. Não imaginavam que anos depois teriam suas vidas completamente afetadas pela ditadura militar.
Todos eram suspeitos até que se provasse o contrário
Nove de outubro de 1975. Era para ser mais um dia comum na vida do professor Miguel Trujillo Filho, na época com 22 anos de idade, que pela manhã lecionava História no Colégio Objetivo, região central de Sorocaba. Mas a aparente tranquilidade foi quebrada quando 20 homens ligados ao Deops foram até a escola e o prenderam. Trujillo foi levado para o Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (Doi-Codi), em São Paulo. A partir dai, foi torturado durante 15 dias consecutivos. "Estava no inferno. Ouvia gemidos e gritos de dor vindo de salas que estavam próximas à que eu estava. Logo aqueles que estavam sendo torturados nessas salas passaram a ouvir os meus gritos", relembra, com os olhos lacrimejantes e um semblante que mescla indignação e emoção.
Miguel Trujillo começou a ser procurado após a prisão de um vereador, em outubro de 1975. O parlamentar foi levado ao Doi-Codi, torturado e teria citado o nome do professor de História. Desde criança, Trujillo se envolveu com a militância. O pai era pedreiro da Estrada de Ferro Sorocabana e ouvia as conversas dos operários ligados aos movimentos de trabalhadores. O golpe militar de 1964 provocou uma onda de prisões de integrantes desses movimentos trabalhistas.
Trujillo fez o seu batismo na militância ao auxiliar a Juventude Comunista a colocar panfletos embaixo das portas, para denunciar o início da ditadura. No dia de sua prisão, 9 de outubro, o professor saiu para lecionar e os agentes policiais foram até sua casa. Descaracterizados, perguntaram por ele à sua mãe. Ela, ingenuamente, respondeu que o filho havia saído para trabalhar na escola, informando o local exato onde ele se encontrava. "Eles foram até a instituição de ensino e questionaram o professor Aldo Vannucchi, que era o diretor à época, sobre o meu paradeiro. O professor Aldo disse que eu não estava. Porém, quando estavam indo embora, decidiram questionar o porteiro e esse funcionário disse que eu estava na escola, o que provocou uma revista em todas as salas de aula. Ai, durante o intervalo, eu acabei sendo preso", conta. A ação foi acompanhada por mais de 1.500 alunos da instituição.
Miguel Trujillo lembra com detalhes de quando chegou no Doi-Codi. Conta que o comandante perguntou aos agentes como tinha sido sua prisão, se teria havido resistência e se muitas pessoas haviam acompanhado o fato. "Eles explicaram e começaram a levar uma broca. O delegado disse: "Seus filhos da..., Como vocês prendem o cara dessa forma? Já falei quem que pegar na quebrada, na esquina..."", conta e completa: "Logo quando cheguei o delegado me disse: "Você é de Sorocaba, é? Lá é uma terra de comunistas!", e depois ainda falou, de forma irônica: "O prefeito lá, Armando Pannunzio, não é comunista, não? (Pannunzio pertencia à Arena, partido do governo)."
Nas salas de torturas no Doi-Codi, o professor passou pela máquina de choque, pau de arara, palmatória e cadeira do dragão. "Olha, eu poderia descrever o que era aquilo ali, mas não há palavras capazes de contar a realidade. Colocavam eletrodos na orelha, boca, no pênis, na vagina, nas mamas e davam choques. As torturas físicas vinham acompanhadas pelas psicológicas. Eles faziam muitas perguntas. Queriam saber se eu conhecia fulano de tal, quem era tal pessoa... A mente tinha que trabalhar a mil para você negar as coisas e ter consciência do que se passava. Quanto mais se falava, mais havia a tortura, pois eles achavam que a gente tinha mais informações. Por isso, era fundamental a gente resistir", comenta.
Após a sequência de tortura, Miguel Trujillo foi levado ao prédio do Deops e lembra que lá ficou incomunicável até desaparecerem os hematomas, as feridas, as marcas de sangue, os roxos debaixo das unhas. "Essa medida adotada por eles era para irmos aos juízes militares bonitinhos, para que não pudessem alegar que fomos torturados. Eles só batiam com cacetete de borracha porque não deixava marcas externas."
Vannucchi era o padre que pregava o credo vermelho em Sorocaba
"Parecendo um contraste é, no entanto, uma realidade a participação de um representante de Cristo no rol daqueles que pregam o credo vermelho. O cônego Aldo Vannucchi, reverendo dos mais cultos, é um agitador social. Presente às reuniões de servidores municipais, procura inflamar o ambiente. Seu palavreado traduz o lirismo vermelho tão conhecido de todos nós." Essa frase é apenas uma das centenas contidas nas mais de 108 fichas e relatórios que o Deops produziu sobre o padre Aldo Vannucchi, que, nesse período, era também o diretor da Faculdade de Filosofia de Sorocaba. 53 anos depois, Vannucchi, ao ler o documento, no último dia 4 de agosto, esboçou um sorriso contido e resumiu: "Tudo era motivo para alguém ser investigado, preso e até mesmo torturado. Eu, como padre, participava muito de reuniões de bairros pregando o Evangelho para a classe operária. Abordávamos os problemas sociais, e isso incomodava."
E incomodava mesmo. Tanto que Vannucchi chegou a ficar 10 dias preso, se autoexilou fora do Brasil e, mesmo quando retornou, em 1975, oito ano antes do fim da ditadura, ele ainda tinha sua vida vigiada pelos policiais do Deops. "Me lembro que numa noite, logo quando voltei do exílio, estava na Pizza na Pedra, um pizzaria tradicional que funcionava na região central da cidade, e um delegado produziu um documento encaminhado ao Deops em que dizia ter visto "o santo padre" numa pizzaria naquela noite", disse.
Vannucchi se lembra da noite em que foi preso. Era 5 de abril de 1964 e, naquela noite, jantava com sua mãe, na residência situada na rua Professor Toledo, região central de Sorocaba. Vestia batina, pois havia acabado de celebrar a missa de domingo na paróquia da Vila Assis. "Naquela noite eu recebi a visita de dois policiais, que diziam que o delegado regional de Sorocaba, Francisco Severino Duarte, queria ter uma conversa comigo. Eu acatei a ordem, mas falei a eles que não iria na viatura policial, que iria no meu próprio carro, um fusca. Peguei a Bíblia, ajeitei a batina e fui até a delegacia, na General Carneiro", lembra.
O delegado, segundo seu relato, foi direto ao ponto. Disse ter recebido um telegrama de São Paulo com a ordem de prendê-lo, assim como o vice-prefeito Agrário Gilson Antunes Teixeira e o vereador Antônio Santa"Anna Marcondes Guimarães. O motivo alegado era que o nome do padre aparecia nas atas do Partido Comunista Brasileiro (PCB) de Sorocaba. "Eu disse ao delegado que apenas pregava os ideais da doutrina social da Igreja, a partir das ideias do papa João 23. Em nada adiantou e acabei sendo detido.".
Sobre esse episódio, há relatório do Deops, datado de 13 de maio de 1964: "Esteve detido nesta cadeia pública quase 24 horas e, na oportunidade, declinou do direito que lhe assistia de "cela especial", preferindo xadrez comum. Esta foi mais uma atitude do sindicado (investigado), provando ser ele, na verdade, elemento subversivo e agitador", relata o documento. "E, não chega a ser ele, como muitos parecem, um inocente útil . Não. A sua cultura e, principalmente como professor e diretor da Faculdade de Filosofia, não nos dá motivos a considera-lo um "inocente". É perigoso, exatamente porque procura separar os católicos."
Vannucchi conta que os três presos passaram a noite praticamente acordados, cada um sobre um colchão em contato direto com o piso. A liberação ocorreu graças à ação do alto escalão da Igreja Católica, que fez o pedido de soltura diretamente ao secretário estadual de Segurança Pública do Estado de São Paulo. Depois, ficou detido no Seminário Diocesano por mais 9 dias.
Hoje, Vannucchi avalia que "o Brasil continua precisando dessa força do ideal de liberdade a partir de uma cartilha político-social baseada na solidariedade. Solidariedade está ligada a algo sólido, concreto. E essa concretude tem que ser apresentada pelos partidos e políticos, e cobrada e acompanhada pela população".
Políticos estavam entre os investigados
Durante o período da Ditadura Militar políticos também estavam entre os principais alvos de investigações e prisões pelos agentes do Deops, sobretudo aqueles ligados aos partidos de trabalhadores e do Partido Comunista do Brasil, que estavam entre os alvos preferenciais do órgão, pois nas ditaduras de Getúlio e na de 1964 eles eram inimigos do regime. Em Sorocaba não foi diferente. Várias fichas e dossiês foram produzidos durante essa fase. Num documento, enviado em 19 de maio de 1964 pela Regional de Polícia de Sorocaba ao Serviço Secreto do Deops, consta uma investigação detalhada para apurar as atividades de 34 pessoas, a maioria delas políticos. Um ano depois o documento foi remetido à Justiça para que tais pessoas fossem processadas ou presas. Entre elas estavam o deputado Juvenal de Campos, os vereadores Humberto Berlink e Emereciano Prestes de Barros, Paulo Ferraz, Francisco Moraes de Souza, Antonio Pegoraro, Coaracy José de Souza, Nelson Marcarenhas Filho, Walter dos Santos, Caetana Martini (líder feminista), Carminio Caramante, Progresso Gonçalves, Antonio Navarro, José Neddermeyer Belfort de Matos, João Kakimori, Gargio Roserberg, Cristovam Munhoz, José Moreno, Renê Boschetti, Edward Marciano da Silva, Antonio Sant"Anna Guimarães, Agrário Gilson Antunes Teixeira, Lázaro de Campos, Paulo Moretti, Armínio Vasconcelos Leite, Celso Ferraz, Roldão Bonilha, Pedro Moretti Guedes, Francisco Lopes, Serafim de Souza, Miguel Lopes Ruiz, Mário L. Campos Oliveira, Antonio Martini, Pedro Segura, cônego Aldo Vannucchi, Guarino F. dos Santos, Santo Nascimento (jornalista), Oswaldo de Oliverira Rocha e Mario Barbosa de Mattos.
Em 1964, o prefeito è época era Armando Pannunzio, alinhado com o governo, e tinha como vice Agrário Gilson Antunes Teixeira, que passou a ser visto pelo regime como um opositor. Um relatório do Deops, até pouco tempo tido como secreto, produzido pela polícia, classificou Agrário como "um dos elementos comunizantes mais atuantes". "Dizendo-se católico praticante, o sindicado Agrário Gilson Antunes Teixeira, vice-prefeito desta cidade, é um dos elementos comunizantes mais atuantes, tendo até mesmo, participado de um comício pró-reformas de base, realizado por "nacionalistas", no Largo do Mercado, nesta cidade", consta no documento, que vai além: "É o dr. Agrário Gilson Antunes Teixeira, um dos elementos de esquerda que, usando de sua inteligência e de sua dialética, leva, como tem levado, muitos correligionários a aceitarem o mais que pregam os comunistas. Assim, suas atitudes, o seu comportamento e sua presença frequente ao lado dos comunistas é para estes de uma importância capital. E, como médico, e médico realmente caridoso, penetra fácil em todos os lares e a sua palavra cala no espírito de todos os incautos. Não resta dúvidas de que o dr. Agrário Antunes é elemento de prestígio junto às massas operárias", assinou o delegado Severino Duarte. Agrário Antunes chegou a ser preso em sua casa e levado para a delegacia da av. General Carneiro, onde dividiu a cela com o padre Aldo Vannucchi, e com o vereador Antonio Sant" Anna Guimarães (MTR). Sobre Sant"Anna, o Deops também o investigou e emitiu um relatório que, entre outras colocações afirma: "O referido sindicado, homem culto e bom orador, constitui-se em ótimo veículo das ideologias comunistas nesta cidade. Contra ele existem elementos insofismáveis de uma simpatia pelo credo vermelho. Na Câmara Municipal é elemento atuante e agitador."
Família libanesa leva marcas da repressão
Quando Toufic Farah, sua esposa Wadad Merhej Farah e suas duas filhas, Elvira e Huda Farah (esta última com menos de um ano de idade), saíram do Líbano no navio Provance, com destino ao Brasil -- mais precisamente Nova Friburgo, no Estado do Rio de Janeiro, onde pensavam viver --, em 12 de maio de 1952, não imaginavam que anos depois teriam suas vidas completamente afetadas pela ditadura militar.
Estabeleceram-se por quatro anos no Rio até se mudarem para a cidade de São Paulo e, no ano seguinte, em 1957, para Sorocaba. Nesse período, Toufic trabalhou como caixeiro viajante e percebeu que a cidade era promissora para implementar seu próprio empreendimento. Até meados de 1969, os negócios andavam de vento em popa e a família, que já contava com quatro novos integrantes, prosperava com quatro lojas espalhadas pela cidade, voltada à venda de roupas e artigos para cama e mesa.
Nesse período, a matriz, localizada na rua Benedito Pires, recebia pessoas que vinham da zona rural. Toufic recebia essas pessoas simples que chegavam para as compras e, às vezes, conversava com elas na sala de sua casa, que dividia espaço com a loja. Discutiam, entre outros assuntos, os rumos do País. Wadad ficava encarregada de servir café fresco aos visitantes, como manda a tradição libanesa. "Meu pai era um homem letrado, falava cinco línguas. E as pessoas gostavam de frenquentar a nossa casa para discutir culturas diferentes e a realidade econômica e social do Brasil naquele período. A casa sempre estava cheia de gente", conta Huda Farah Siqueira Cunha, que tinha 17 anos naquele ano. Hoje ela é a atual secretária de Saúde de Ibiúna.
E foi num desses dias, mais precisamente 12 de julho de 1969, que a alegria da casa foi interrompida com a chegada de uma viatura trazendo oito policiais. Armados, invadiram a residência. "Eles entraram e começaram a revirar tudo. Tínhamos livros de história e geografia em árabe e pelo simples fato de terem a capa vermelha eles falavam que éramos comunistas. Eram extremamente agressivos. E, num determinado momento, prenderam meus pais", lembra Huda emocionada. "Minha mãe estava grávida de minha irmã, Patrícia Farah, e foi levada num carro junto comigo. Meu pai foi em outra viatura. Ele foi levado para a unidade do Deops em Sorocaba e eu e minha mãe fomos para outra delegacia. Lá eles pegaram meus dados e mandaram eu ir embora. Minha mãe foi levada para o Deops em São Paulo. Não sabíamos o paradeiro de meu pai. Só depois descobrimos que ele ficou preso na sede do Doi-Codi", recorda.
Huda conta que sua mãe ficou presa por um mês e só foi liberada após ter uma ameaça de aborto. Wadad e os filhos eram monitorados por policiais, que se revezavam em frente à residência e também nas lojas. "Eles cadastravam até mesmo quem vinha para comprar algum produto. Com isso, as vendas despencaram e tivemos que fechar as lojas. Ninguém queria entrar. Na escola, eu era excluída. Todos tinham medo", lembra. Nesse momento da entrevista, Huda não consegue segurar as lágrimas.
Seu pai, Toufic Farah, ficou preso por dois meses, sendo liberado por meio de uma negociação feita pelo Consulado do Líbano. "Ele chegou extremamente debilitado", lembra Huda. "E, sem as lojas, não conseguiu mais colocação no mercado de trabalho. Minha mãe precisou vender salgadinhos para garantir um dinheiro em casa. Meu pai morreu aos 89 anos, em 2002. Foi um período cruel. Acabaram com vidas de pessoas do bem, trabalhadoras, em nome de política ditatorial. Meu pai nunca mais se recuperou, foi morrendo aos poucos. Minha mãe, que mora hoje na Capital, ainda sofre as sequelas de uma tortura psicológica e dos nervos que sofreu diante de tudo que passamos para sobreviver."
Estudantes eram símbolo da resistência
Durante a ditadura militar, o movimento estudantil ocupou um espaço destacado na resistência ao regime. Manifestações coordenadas pela União Nacional dos Estudantes (UNE) denunciaram os problemas da educação e expuseram o lado sombrio do regime. Em consequência, os estudantes tornaram-se alvo do aparato repressivo do Estado. Muitos foram monitorados, fichados, presos, torturados e mortos. E com estudantes sorocabanos não foi diferente. Nos arquivos do Deops há cinco dossiês, com mais de quinhentos documentos e fichas sobre o acompanhamento dos passos dos movimentos estudantis, centros acadêmicos e grêmios na cidade.
Um dos fatos mais emblemáticos desse período envolveu o estudante Alexandre Vannucchi Leme, que em março de 1973 foi preso e torturado. Além dele, que se tornou um dos mártires da luta contra a ditadura, Gerardo Magela da Costa, outra liderança do movimento estudantil que morou em Sorocaba, morreu no mesmo ano. Segundo a versão oficial divulgada pelos órgãos de governo, Gerardo teria se suicidado, atirando-se do Viaduto do Chá, centro de São Paulo. A causa da morte foi atribuída a traumatismo crânio-encefálico. O laudo foi assinado por Otávio D"Andréia, legista da ditadura militar, responsável por inúmeros pareceres falsos de morte de prisioneiros políticos, a exemplo de Luís Eurico Tejera Lisboa, morto sob tortura em São Paulo.
O histórico da repressão militar em Sorocaba e região destaca um episódio icônico do período, a prisão de quase mil estudantes em outubro de 1968 num sítio em Ibiúna, durante o 30º Congresso Nacional da UNE (União Nacional dos Estudantes), dissolvido por ação conjunta de 215 policiais da Força Pública e Dops, então comandados pelo cel. Divo Barsotti, do 7º BP.
Entre os detidos estava o ex-vereador de Sorocaba, à época aluno do curso de Farmácia e Bioquímica da USP, Osvaldo Francisco Noce. O encontro, conta ele, hoje com 75 anos, serviria para reconduzir a chapa encabeçada por Luiz Travassos à presidência da entidade, e, também, para reafirmar a plataforma de lutas do movimento estudantil. Natural de Araçatuba, Noce fazia parte, dentro da União Estadual dos Estudantes (UEE), da comissão responsável pela organização e mobilização no interior
Não houve, ao menos, tempo para que os debates programados para os dias 11, 12 e 13 de outubro (e, sobretudo a eleição dos dirigentes) ocorressem. "Não houve tempo para nada. No sábado pela manhã, por volta das 9h, nós fomos surpreendidos por policiais militares que, sem muita dificuldade, deram por encerrada a reunião e detiveram todos que ali se encontravam, inclusive eu", lembra Noce.
Por não ser liderança, Noce foi menos visado. Mesmo assim, foi transferido para o Carandiru, onde ficou detido por dois meses. Os então líderes da UNE José Dirceu, Luiz Travassos e Vladimir Palmeira, entre outros, ficaram mais tempo presos. A libertação do grupo seria exigida, anos depois, pelos ativistas que sequestraram o embaixador dos Estados Unidos. Osvaldo Noce ainda retornou à USP onde, junto com outros companheiros, avaliou os rumos da mobilização. Aprovado no vestibular, cursou Biologia. Mudou-se, muito depois do episódio, para Sorocaba, onde ajudou a fundar o diretório do Partido dos Trabalhadores (PT), pelo qual se elegeu vereador e cumpriu três mandatos. Posteriormente, filiou-se ao Psol.
Comissão da Verdade trabalhou por um ano
Sorocaba, no mês de fevereiro de 2014, a Câmara de Sorocaba criou a Comissão Municipal da Verdade, encarregada de apurar casos de violação de direitos humanos no município durante o regime militar (1964-1985). O pedido foi feito por um grupo de estudiosos do assunto, militantes e sindicalistas, liderados pelo professor de filosofia Daniel Lopes, de 34 anos, que também trabalhou na Comissão de Anistia, do Ministério da Justiça, dirigida, à época, pelo ministro Tarso Genro, ex-governador do Rio Grande do Sul. A Comissão da Verdade, em Sorocaba, teve como presidente o ex-vereador Izídio de Brito. Anselmo Neto, hoje secretário municipal, secretariou os trabalhos, que duraram aproximadamente um ano.
"Período muito curto. Não havia tempo. Nossa preocupação era anexar os depoimentos colhidos, na cidade, aos documentos estaduais e nacionais. E o prazo acabava naquele ano. Também, o fato de ser um trabalho voluntário, precarizava a investigação", lembra Daniel Lopes, observando que o grupo conseguiu, entretanto, cumprir seu papel. "Em razão do tempo curto, muito ficou sem a devida apuração. Apuramos que houve muitos sorocabanos torturados, entretanto, torturados fora de Sorocaba. Principalmente em São Paulo. A maioria era presa aqui, mas torturada fora daqui. Sobre torturas aqui, não conseguimos nenhuma informação sólida, ainda que reste a suspeita."
De outro lado, conta, a comissão abriu a possibilidade para que muitas histórias desconhecidas ficassem públicas, como a do estudante, desaparecido até os dias de hoje, Marco Antonio Dias Batista. Ele tinha 16 anos. É o desaparecido político mais jovem do Brasil. Era sorocabano. Foi preso em Goiânia, quando parte de sua família mudou-se para lá. Era militante da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), organização de Carlos Lamarca. Ou a história de Dona Odete, que tinha, junto de seu marido, um comércio na rua Coronel Benedito Pires e estava grávida quando foi presa, quase sofrendo um aborto, em razão das torturas.
Para investigar, além dos próprios depoimentos e informações anônimas, a comissão também contou com os documentos do serviço de inteligência da própria ditadura. Muitos desses documentos, hoje em dia, são públicos. As famílias e os perseguidos também encaminhavam documentos. "Todos da sociedade civil, que participaram da comissão, trabalharam voluntariamente, sem ganhar nada, apenas pela convicção de que era necessário reescrever a história do período em Sorocaba, dando voz aos que ficaram sufocados, seja por prisão, tortura, censura, medo ou outro motivo, para que as próximas gerações tenham acesso à verdade histórica e compreendam a importância da manutenção de um ambiente democrático. Para mim, o mais importante é esclarecer aos sorocabanos que houve efetiva perseguição política em Sorocaba. Que sorocabanos foram perseguidos, presos, torturados e assassinados, desde políticos a pessoas comuns", afirmou Daniel.
Segundo ele, há uma tentativa, na disputa de narrativas históricas, de transformar o golpe de 1964 em um ato "brando". "Isso é um perigo. A ditadura corresponde a uma página triste de nossa história, e não pode ser esquecida", diz, lembrando que a Alemanha mantém museus que retratam o nazismo até os dias de hoje, para que os alemães não se esqueçam dos erros cometidos. Baseiam-se no conceito de "banalidade do mal", da filósofa Hannah Arendt, de que todos os seres humanos são capazes de cometer atrocidades, numa sociedade massificada em que as pessoas não são estimuladas a pensar.
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