Daniela Jacinto - daniela.jacinto@jcruzeiro.com.br
Eles trocam fraldas, dão mamadeira, ajudam na lição de casa, vão nas
reuniões da escola e também se divertem muito com os filhos, seja
jogando futebol, videogame ou até mesmo brincando de casinha. Os pais de
hoje estão se envolvendo mais com a criação, e enquanto alguns
compartilham as responsabilidades com as mães, outros assumiram sozinhos
essa tarefa, por variados motivos, entre eles viuvez e separação. Esses
"pais solteiros" tiveram a oportunidade de delegar a função para as
mulheres da família, mas chamaram para si a função paterna e fizeram
questão de vivenciá-la. Não é fácil, dizem eles, mas é gratificante
porque não há nada nesse mundo que possa comparar o sentimento de união
entre um pai e seus filhos.
Dorival Benedito Ferreira de Araujo, 41 anos, mora sozinho com o
filho Guilherme, desde que o menino tinha 2 anos de idade. Faz parte de
sua rotina levar para a escola, ao médico e nas atividades que a criança
participa.
Conforme Dorival, foi ele que fez questão de ficar com o filho, hoje
com 6 anos. "Eu ia visitar até os 2 anos, mas quando a mãe decidiu
fazer a vida dela e formar uma família, eu pedi para ficar com o
Guilherme. Ela não queria, lutei por ele e deu certo. Desde então é ela
que o visita", conta Dorival, que trabalha como autônomo.
Para Dorival, Guilherme é a razão de sua vida e o faz se sentir mais
completo. "Participo de reunião da escola, ajudo com as lições de
casa... Ele se dá bem com os números, adora fazer contas, acho que me
puxou porque sou assim", orgulha-se.
Pai e filho são acima de tudo amigos. "A gente costuma jogar bola,
videogame e ainda andamos junto de bicicleta. É meu companheiro. Tudo o
que aconteceu de melhor na minha vida foi ele."
Dorival conta que quis muito ficar com Guilherme porque já teve de
viver distante da criação de suas duas filhas mais velhas, frutos de um
outro relacionamento. Hoje elas têm 21 anos e 19 anos. "Não tive tanta
convivência com elas", lamenta, acrescentando que criar é diferente.
Entre os ensinamentos que considera importante transmitir a seu
filho, Dorival lembra que estão sempre as palavras "por favor" e
"obrigado".
Apesar de pai e filho morarem sozinhos, Dorival ressalta que tem uma
companheira, Simone, que o ajuda muito. "Sou grato a ela porque cuida
de nós dois também."
Presente desde a primeira mamada
Foi na adolescência que José Lima de Almeida se tornou pai. Na época com
19 anos, e por decisões do destino, foi ele quem deu o primeiro leite
para Samuel. A mãe, Angélica, morreu dez dias após o parto e não chegou a
amamentar porque estava muito doente.
José, hoje com 29 anos, conta que perdeu quem amava e precisou arranjar
forças para continuar, já que em seus braços tinha um bebê necessitando
de cuidados. "Namorava com a Angélica desde que eu tinha 15 anos. Foi
muito difícil pra mim", lembra ele.
Apesar do sofrimento, José diz que não pensou em nenhum momento em
delegar a função de cuidar do filho para ninguém. Se quisesse, poderia
ter deixado o menino com a avó materna, que queria ter ficado com a
criança, mas ele afirma que isso nem passou pela sua cabeça.
Desde então veio o banho, a troca de fraldas, as vacinas, os primeiros
passos, os dentes nascendo. Cada etapa foi acompanhada de perto pelo
pai. "Na época eu era muito novo e minha família me ajudou. Aprendi com
minha mãe e minha tia, elas me ensinaram como ser pai. Foi tranquilo,
fui pegando o jeito. E ele é bonzinho também", diz.
José afirma que sempre teve vontade de ser um pai presente, porque
quando tinha 7 anos e seus pais se separaram, apenas a mãe assumiu a
criação dos filhos. "Cuidar do meu filho para mim é natural, não é
nenhum sacrifício. Sempre fui muito chegado nele, é muito bom cuidar de
alguém que você gosta."
Para quem pensa em ter um filho, José aconselha a ter ciência do que
está fazendo, para não prejudicar o futuro da criança. "Ter filho é
investimento, não é só levar na escola, a criança tem de fazer um
esporte, aprender música, é preciso levar para passeios", diz.
Tudo pelo filho
Exercer a função de pai, comenta José, também tem momentos de dúvidas e
insegurança. "Como o Samuel é meu primeiro filho, muitas vezes paro para
analisar se estou sendo muito bravo ou muito frouxo, mas o importante é
você querer fazer o melhor."
José também passou por momentos angustiantes, apreensivo com a saúde da
criança. "Tive de aguardar até ele completar 3 anos para poder saber se
herdaria uma doença genética, degenerativa. É angustiante, horrível.
Graças a Deus ele não tinha. É complicado ser pai ou mãe sozinho, por
isso optei por continuar morando com minha família."
Se fosse morar sozinho, afirma José, seria pior para a criança. "Na
época eu chegava tarde em casa por causa do trabalho e não tinha como
dar tanta atenção, mas foi pensando no Samuel que resolvi sair daquele
emprego e abrir uma empresa."
Desde que se tornou dono do próprio negócio, José passou a acompanhar
mais de perto a vida do Samuel. "Quando tem evento na escola dele à
tarde, agora posso ir. Também levo ao dentista e algumas vezes o levo na
empresa para ficar comigo. À noite, quando ele chega da escola, já
estou em casa e aí fazemos a lição juntos."
Ser pai solteiro também significa abrir mão de muitas coisas. "Tive de
deixar de sair passear à noite, e também de morar fora. Já terminei com
namorada que não gostava que eu tivesse filho... Não é fácil mas não vou
ser um cara que vai se arrepender e pensar que meu filho cresceu e não
estive com ele. Estou no caminho certo, e sei disso principalmente
porque não tive meu pai perto de mim."
Apesar do tamanho da responsabilidade, José assume com facilidade. "É
uma atribuição muito boa porque no final das contas você faz isso porque
gosta do seu filho. É por isso que as pessoas têm filho, porque apesar
de ser difícil, é bom. A gente dá risada, volta a ser criança de novo,
tudo isso compensa muito. Você sabe que tem um amor na sua vida. Eu
adoro ter ele."
Além de Samuel ser o sentido da vida de José, ele como pai se sente em
segundo plano quando lembra da mãe do menino, que teve uma gravidez de
risco. "Se eu estivesse longe do Samuel, não estaria honrando o que a
mãe dele fez por ele. O mínimo que eu posso fazer é ser um bom pai. Eu
faço tudo o que faço, e mesmo assim não chega perto do que a Angélica
fez por ele."
Criar os filhos é uma grande missão que Cristiano assumiu há cinco anos
"Pode pá" (pode crer), "ramelão" (vacilão, que dá mancadas), "chavoso"
(estilo de se vestir)... Essas são algumas das gírias faladas na casa de
Cristiano Nascimento, 41 anos, para quem ser pai de adolescente é,
entre outras coisas, aprender cada dia um novo vocabulário.
Separado da esposa há 10 anos, no decorrer dos primeiros cinco anos quem
ficou com as crianças foi a mãe, e há cinco anos, Cristiano assumiu a
tarefa e mora sozinho com Christian, hoje com 17 anos, e Mellanie, 15
anos. "Eles trazem muitos pensamentos inovadores para mim e quando têm
dúvidas, nunca é uma resposta fácil, simples. Muitas vezes eu falo que
vou pensar sobre o assunto para conversar com eles depois", conta
Cristiano.
Na época que os filhos foram morar com ele, o menino estava com 12 anos e
a menina com 10, bem naquela fase de transição entre a infância e a
adolescência. Por ser homem, Cristiano teve maior dificuldade para lidar
com a Mellanie. Criar uma menina que estava se tornando mocinha não foi
simples para ele. Cristiano conta que se valeu de conversas com amigas
para entender mais sobre as questões femininas e poder explicar para a
filha sobre o que aconteceria com seu corpo. "Como sou garota, tem
coisas que a gente se sente mais à vontade para falar com a mãe, mas
morar com o pai tem sido uma experiência muito boa também, cada estilo é
diferente", diz Mellanie.
Christian comenta que morar com o pai tem lhe ensinado a ter
independência emocional. "A falta de convivência diária com a minha mãe,
me fez cultivar mais amizades, aprender a lidar melhor com meus
problemas. Tenho um pai amigo, mas também um pai firme. Ele mais me
ajuda do que me censura, isso é muito bom para mim na questão
emocional."
Sabedoria
Cristiano conta que essa paternidade mais presente faz com que busque a
sabedoria para lidar com dois universos diferentes. "A Mellanie, muitas
vezes, quer coisas além do que cabe na sua idade, já o Christian preciso
empurrar mais. Quem está aprendendo com tudo isso sou eu, quem mais
recebe sou eu", diz o pai.
Em termos de desenvolvimento, de grau de maturidade, convívio social,
opiniões e posicionamentos, Cristiano avalia que os filhos estão
caminhando muito bem. "Percebo que eles estão bem, comparando com
atitudes de jovens da mesma idade", orgulha-se.
Uma regra básica na casa de Cristiano é o respeito um pelo outro, isso
aliás, desde pequenos. Ainda na infância o pai ensinava que se brigassem
teriam de se entender. Para isso, Cristiano colocava os dois para
escolherem arroz e feijão. "Ele misturava bem o arroz e o feijão e nos
colocava para separar. Isso fazia com que a gente acabasse conversando
de novo", contam os filhos. "Isso nos uniu. Nós nos damos muito bem",
completam Christian e Mellanie.
Na casa de Cristiano não tem essa de tabu, todos os assuntos são
permitidos e levantados para discussão e reflexão. Eles falam sobre
política, religião, drogas, sexualidade... "Tudo é colocado na mesa. Eu
tenho uma filosofia de desconstrução de crenças. Não é porque sou o pai
que acho que minha verdade tem de prevalecer, cada um tem a sua verdade e
a gente não precisa concordar. Tem pais que ficam enfiando suas
verdades na cabeça dos filhos, depois eles se revoltam e acabam vendo os
pais como uma prisão."
Cristiano acredita que no geral seus filhos já sabem lidar sozinhos com
uma série de situações. "Meu maior desafio e acho que também minha maior
sorte é aprender como funcionam essas pessoas, para que eu possa
ajudá-los. Ser pai para mim é uma grande missão, é uma forma de
retribuir o que fizeram por mim. Só sendo pai você vai entender o que
fizeram por você."
Homens mostram que também são capazes
Culturalmente, as mulheres estão mais acostumadas a assumir sozinhas as
responsabilidades com as crianças e justamente por isso o homem acaba
sendo rotulado como alguém que não teria condições de cuidar sozinho dos
filhos. É também uma forma de preconceito com relação a eles e que tem
mudado ao longo dos anos, já que cada vez mais os homens estão
interessados em se envolver com a educação dos filhos e arrumando um
jeito para se fazerem mais presentes.
Cássia Maria Prigenzi Vilela, terapeuta familiar e médica homeopata,
lembra que a guarda compartilhada foi um avanço nesse sentido. Até
então, apenas a mulher tinha essa vantagem, de ficar com os filhos após
um divórcio. Outro fato que tem contribuído para mais homens desfrutarem
de convivência maior com os filhos, diz a terapeuta, é a formação dos
casais homoafetivos, que muitas vezes optam por adotar crianças; tinham
filhos de relações anteriores; ou contaram com a ajuda da ciência para
terem seus próprios filhos. "A gente vive um momento diferente. Os
homens estão experimentando outros lugares, podendo serem pais mais
participativos. Esse é um movimento interessante, o que tem
proporcionado para mais pessoas conviverem com seus pais", observa.
Sim, há muitos homens que conseguem bancar a criação sozinhos, da mesma
forma as mães fazem. "São pais que têm condições de suprir o que é
importante para a criança. O fundamental é que, independente do gênero,
se pai ou mãe, é preciso ter disponibilidade afetiva para acompanhar,
olhar para essa criança, dar o suporte necessário. A criança precisa
saber que pode contar com essa figura, saber que tem um porto de
segurança e afeto. Isso a faz se sentir confiante para se desenvolver no
mundo."
Ainda conforme Cássia, o ideal seria se o casal pudesse criar os filhos
juntos, mas caso não seja possível, é muito positiva essa ampliação e
flexibilização dos papeis da mãe e do pai. "Os homens de hoje estão se
dispondo com amorosidade a viver isso, estão se legitimando como pais e
nesse sentido todos saem ganhando: os pais, os filhos e a sociedade."
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