domingo, 13 de agosto de 2017

Pais solteiros' contam a experiência de assumir a responsabilidade pela criação da prole

Daniela Jacinto - daniela.jacinto@jcruzeiro.com.br  

 Eles trocam fraldas, dão mamadeira, ajudam na lição de casa, vão nas reuniões da escola e também se divertem muito com os filhos, seja jogando futebol, videogame ou até mesmo brincando de casinha. Os pais de hoje estão se envolvendo mais com a criação, e enquanto alguns compartilham as responsabilidades com as mães, outros assumiram sozinhos essa tarefa, por variados motivos, entre eles viuvez e separação. Esses "pais solteiros" tiveram a oportunidade de delegar a função para as mulheres da família, mas chamaram para si a função paterna e fizeram questão de vivenciá-la. Não é fácil, dizem eles, mas é gratificante porque não há nada nesse mundo que possa comparar o sentimento de união entre um pai e seus filhos.

Dorival Benedito Ferreira de Araujo, 41 anos, mora sozinho com o filho Guilherme, desde que o menino tinha 2 anos de idade. Faz parte de sua rotina levar para a escola, ao médico e nas atividades que a criança participa.

Conforme Dorival, foi ele que fez questão de ficar com o filho, hoje com 6 anos. "Eu ia visitar até os 2 anos, mas quando a mãe decidiu fazer a vida dela e formar uma família, eu pedi para ficar com o Guilherme. Ela não queria, lutei por ele e deu certo. Desde então é ela que o visita", conta Dorival, que trabalha como autônomo.

Para Dorival, Guilherme é a razão de sua vida e o faz se sentir mais completo. "Participo de reunião da escola, ajudo com as lições de casa... Ele se dá bem com os números, adora fazer contas, acho que me puxou porque sou assim", orgulha-se.

Pai e filho são acima de tudo amigos. "A gente costuma jogar bola, videogame e ainda andamos junto de bicicleta. É meu companheiro. Tudo o que aconteceu de melhor na minha vida foi ele."

Dorival conta que quis muito ficar com Guilherme porque já teve de viver distante da criação de suas duas filhas mais velhas, frutos de um outro relacionamento. Hoje elas têm 21 anos e 19 anos. "Não tive tanta convivência com elas", lamenta, acrescentando que criar é diferente.

Entre os ensinamentos que considera importante transmitir a seu filho, Dorival lembra que estão sempre as palavras "por favor" e "obrigado".

Apesar de pai e filho morarem sozinhos, Dorival ressalta que tem uma companheira, Simone, que o ajuda muito. "Sou grato a ela porque cuida de nós dois também."



Presente desde a primeira mamada




Foi na adolescência que José Lima de Almeida se tornou pai. Na época com 19 anos, e por decisões do destino, foi ele quem deu o primeiro leite para Samuel. A mãe, Angélica, morreu dez dias após o parto e não chegou a amamentar porque estava muito doente.



José, hoje com 29 anos, conta que perdeu quem amava e precisou arranjar forças para continuar, já que em seus braços tinha um bebê necessitando de cuidados. "Namorava com a Angélica desde que eu tinha 15 anos. Foi muito difícil pra mim", lembra ele.



Apesar do sofrimento, José diz que não pensou em nenhum momento em delegar a função de cuidar do filho para ninguém. Se quisesse, poderia ter deixado o menino com a avó materna, que queria ter ficado com a criança, mas ele afirma que isso nem passou pela sua cabeça.



Desde então veio o banho, a troca de fraldas, as vacinas, os primeiros passos, os dentes nascendo. Cada etapa foi acompanhada de perto pelo pai. "Na época eu era muito novo e minha família me ajudou. Aprendi com minha mãe e minha tia, elas me ensinaram como ser pai. Foi tranquilo, fui pegando o jeito. E ele é bonzinho também", diz.



José afirma que sempre teve vontade de ser um pai presente, porque quando tinha 7 anos e seus pais se separaram, apenas a mãe assumiu a criação dos filhos. "Cuidar do meu filho para mim é natural, não é nenhum sacrifício. Sempre fui muito chegado nele, é muito bom cuidar de alguém que você gosta."



Para quem pensa em ter um filho, José aconselha a ter ciência do que está fazendo, para não prejudicar o futuro da criança. "Ter filho é investimento, não é só levar na escola, a criança tem de fazer um esporte, aprender música, é preciso levar para passeios", diz.



Tudo pelo filho




Exercer a função de pai, comenta José, também tem momentos de dúvidas e insegurança. "Como o Samuel é meu primeiro filho, muitas vezes paro para analisar se estou sendo muito bravo ou muito frouxo, mas o importante é você querer fazer o melhor."



José também passou por momentos angustiantes, apreensivo com a saúde da criança. "Tive de aguardar até ele completar 3 anos para poder saber se herdaria uma doença genética, degenerativa. É angustiante, horrível. Graças a Deus ele não tinha. É complicado ser pai ou mãe sozinho, por isso optei por continuar morando com minha família."



Se fosse morar sozinho, afirma José, seria pior para a criança. "Na época eu chegava tarde em casa por causa do trabalho e não tinha como dar tanta atenção, mas foi pensando no Samuel que resolvi sair daquele emprego e abrir uma empresa."



Desde que se tornou dono do próprio negócio, José passou a acompanhar mais de perto a vida do Samuel. "Quando tem evento na escola dele à tarde, agora posso ir. Também levo ao dentista e algumas vezes o levo na empresa para ficar comigo. À noite, quando ele chega da escola, já estou em casa e aí fazemos a lição juntos."



Ser pai solteiro também significa abrir mão de muitas coisas. "Tive de deixar de sair passear à noite, e também de morar fora. Já terminei com namorada que não gostava que eu tivesse filho... Não é fácil mas não vou ser um cara que vai se arrepender e pensar que meu filho cresceu e não estive com ele. Estou no caminho certo, e sei disso principalmente porque não tive meu pai perto de mim."



Apesar do tamanho da responsabilidade, José assume com facilidade. "É uma atribuição muito boa porque no final das contas você faz isso porque gosta do seu filho. É por isso que as pessoas têm filho, porque apesar de ser difícil, é bom. A gente dá risada, volta a ser criança de novo, tudo isso compensa muito. Você sabe que tem um amor na sua vida. Eu adoro ter ele."



Além de Samuel ser o sentido da vida de José, ele como pai se sente em segundo plano quando lembra da mãe do menino, que teve uma gravidez de risco. "Se eu estivesse longe do Samuel, não estaria honrando o que a mãe dele fez por ele. O mínimo que eu posso fazer é ser um bom pai. Eu faço tudo o que faço, e mesmo assim não chega perto do que a Angélica fez por ele."




Criar os filhos é uma grande missão que Cristiano assumiu há cinco anos




"Pode pá" (pode crer), "ramelão" (vacilão, que dá mancadas), "chavoso" (estilo de se vestir)... Essas são algumas das gírias faladas na casa de Cristiano Nascimento, 41 anos, para quem ser pai de adolescente é, entre outras coisas, aprender cada dia um novo vocabulário.



Separado da esposa há 10 anos, no decorrer dos primeiros cinco anos quem ficou com as crianças foi a mãe, e há cinco anos, Cristiano assumiu a tarefa e mora sozinho com Christian, hoje com 17 anos, e Mellanie, 15 anos. "Eles trazem muitos pensamentos inovadores para mim e quando têm dúvidas, nunca é uma resposta fácil, simples. Muitas vezes eu falo que vou pensar sobre o assunto para conversar com eles depois", conta Cristiano.



Na época que os filhos foram morar com ele, o menino estava com 12 anos e a menina com 10, bem naquela fase de transição entre a infância e a adolescência. Por ser homem, Cristiano teve maior dificuldade para lidar com a Mellanie. Criar uma menina que estava se tornando mocinha não foi simples para ele. Cristiano conta que se valeu de conversas com amigas para entender mais sobre as questões femininas e poder explicar para a filha sobre o que aconteceria com seu corpo. "Como sou garota, tem coisas que a gente se sente mais à vontade para falar com a mãe, mas morar com o pai tem sido uma experiência muito boa também, cada estilo é diferente", diz Mellanie.



Christian comenta que morar com o pai tem lhe ensinado a ter independência emocional. "A falta de convivência diária com a minha mãe, me fez cultivar mais amizades, aprender a lidar melhor com meus problemas. Tenho um pai amigo, mas também um pai firme. Ele mais me ajuda do que me censura, isso é muito bom para mim na questão emocional."



Sabedoria




Cristiano conta que essa paternidade mais presente faz com que busque a sabedoria para lidar com dois universos diferentes. "A Mellanie, muitas vezes, quer coisas além do que cabe na sua idade, já o Christian preciso empurrar mais. Quem está aprendendo com tudo isso sou eu, quem mais recebe sou eu", diz o pai.



Em termos de desenvolvimento, de grau de maturidade, convívio social, opiniões e posicionamentos, Cristiano avalia que os filhos estão caminhando muito bem. "Percebo que eles estão bem, comparando com atitudes de jovens da mesma idade", orgulha-se.



Uma regra básica na casa de Cristiano é o respeito um pelo outro, isso aliás, desde pequenos. Ainda na infância o pai ensinava que se brigassem teriam de se entender. Para isso, Cristiano colocava os dois para escolherem arroz e feijão. "Ele misturava bem o arroz e o feijão e nos colocava para separar. Isso fazia com que a gente acabasse conversando de novo", contam os filhos. "Isso nos uniu. Nós nos damos muito bem", completam Christian e Mellanie.



Na casa de Cristiano não tem essa de tabu, todos os assuntos são permitidos e levantados para discussão e reflexão. Eles falam sobre política, religião, drogas, sexualidade... "Tudo é colocado na mesa. Eu tenho uma filosofia de desconstrução de crenças. Não é porque sou o pai que acho que minha verdade tem de prevalecer, cada um tem a sua verdade e a gente não precisa concordar. Tem pais que ficam enfiando suas verdades na cabeça dos filhos, depois eles se revoltam e acabam vendo os pais como uma prisão."



Cristiano acredita que no geral seus filhos já sabem lidar sozinhos com uma série de situações. "Meu maior desafio e acho que também minha maior sorte é aprender como funcionam essas pessoas, para que eu possa ajudá-los. Ser pai para mim é uma grande missão, é uma forma de retribuir o que fizeram por mim. Só sendo pai você vai entender o que fizeram por você."


Homens mostram que também são capazes


Culturalmente, as mulheres estão mais acostumadas a assumir sozinhas as responsabilidades com as crianças e justamente por isso o homem acaba sendo rotulado como alguém que não teria condições de cuidar sozinho dos filhos. É também uma forma de preconceito com relação a eles e que tem mudado ao longo dos anos, já que cada vez mais os homens estão interessados em se envolver com a educação dos filhos e arrumando um jeito para se fazerem mais presentes.

Cássia Maria Prigenzi Vilela, terapeuta familiar e médica homeopata, lembra que a guarda compartilhada foi um avanço nesse sentido. Até então, apenas a mulher tinha essa vantagem, de ficar com os filhos após um divórcio. Outro fato que tem contribuído para mais homens desfrutarem de convivência maior com os filhos, diz a terapeuta, é a formação dos casais homoafetivos, que muitas vezes optam por adotar crianças; tinham filhos de relações anteriores; ou contaram com a ajuda da ciência para terem seus próprios filhos. "A gente vive um momento diferente. Os homens estão experimentando outros lugares, podendo serem pais mais participativos. Esse é um movimento interessante, o que tem proporcionado para mais pessoas conviverem com seus pais", observa.

Sim, há muitos homens que conseguem bancar a criação sozinhos, da mesma forma as mães fazem. "São pais que têm condições de suprir o que é importante para a criança. O fundamental é que, independente do gênero, se pai ou mãe, é preciso ter disponibilidade afetiva para acompanhar, olhar para essa criança, dar o suporte necessário. A criança precisa saber que pode contar com essa figura, saber que tem um porto de segurança e afeto. Isso a faz se sentir confiante para se desenvolver no mundo."

Ainda conforme Cássia, o ideal seria se o casal pudesse criar os filhos juntos, mas caso não seja possível, é muito positiva essa ampliação e flexibilização dos papeis da mãe e do pai. "Os homens de hoje estão se dispondo com amorosidade a viver isso, estão se legitimando como pais e nesse sentido todos saem ganhando: os pais, os filhos e a sociedade."

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