domingo, 6 de novembro de 2016

Crônica de domingo



Os pés de lata
Nos meus tempos de menina e lá se vão quarenta anos! Havia uma brincadeira na minha rua chamada de Pés de lata. Os meninos faziam uma barulhenta corrida com os pés sobre latas de leite em pó e atraia a  atenção de todos os moradores. A torcida era grande e a disputa era acirrada. Era a febre da época e meninos ricos e pobres disputavam em  igualdade.
Hoje ao observar meus alunos em  seus celulares, cabisbaixos e cada vez mais ausentes no mundo real e presentes no ambiente virtual questiono-me sobre a alegria do bom e velho bate-papo das rodinhas de amizades na escola. Era lá que tudo de mais importante acontecia no universo dos estudantes.
Uma vez a professora de Educação Física montou um torneio com as latas. Era um circuito bacana, com obstáculos, que os corredores teriam de enfrentar e venceria o mais hábil, por se equilibrar em cima da lata, correr segurando uma corda e ser mais veloz. Após a corrida, a professora perguntou ao vencedor qual era a sensação de subir na lata e equilibrar-se para correr? E ele emocionado respondeu:
- Quando subo na lata, vejo o mundo de outro ângulo: me sinto gente grande, tenho que pensar como um adulto para atingir meu alvo e é um mundo sério, onde só o melhor e mais rápido vence. Depois, quando a corrida acaba, desço da lata e volto a ser criança novamente, encaro o mundo que está aos meus olhos e meus amigos já não são  vistos  por mim como competidores e nos abraçamos como velhos amigos de rua.
Notei que ela ficou emocionada com o relato do aluno e percebi o quanto essas competições eram importantes para a nossa comunidade e para nos fazer refletir sobre o mundo adulto.
 Hoje, ao pensar sobre quais habilidades esse jogo proporciona aos alunos, muitas são as que vêm à mente: desenvolver a coordenação motora, por exemplo, ao equilibrar-se em cima da lata e correr segurando as cordas. O saber perder é uma das grandes lições que ela ensina, mas a ideia de olhar o mundo em cima das latas como se fosse um adulto e depois saber voltar ao mundo colorido de ser criança novamente foi uma das minhas maiores lições de vida que aprendi ouvindo aquele campeão.
                                                                                                                                      Juliana Cruz


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