Fonte: G1
Grafitódromo
Com a polêmica gerada após a ação, a Secretaria da Cultura de São Paulo
afirmou que pretende cria uma área para grafiteiros e muralistas no
bairro da Mooca, na zona leste de São Paulo, chamada de grafitódromo.
Segundo Doria, assim como a arte fica nos museus, o grafite também deve
ficar em "lugares adequados".
A ideia é inspirada em Wynwood, um bairro de Miami que abriga painéis e
murais de arte urbana, assim como a venda de produtos licenciados para
viabilizar o negócio.
"Doria não precisa olhar para Miami para intervir nas artes de rua. O
mundo é que olha para nós. São Paulo sempre foi a capital do grafite
mundial", afirma Rui Amaral, autor do primeiro grafite pintado à mão em
São Paulo, em 1982.
Para o artista plástico Jaime Prades, que também fez parte da primeira
geração de grafiteiros, o grafitódromo representa um limite para
liberdade de expressão. "É uma visão paternalista que quer impor o que
considera 'certo'. Logo, o grafite é algo errado, que tem que ser
contido e controlado", diz.
"Mas nesse caso, não seria mais grafite, já que a alma do grafite é interagir com a cidade livremente."
A prefeitura também informou que criará um programa de grafite, que
terá início com a criação, na rua Augusta, do Museu de Arte de Rua
(MAR), no qual 150 artistas terão seus painéis expostos por até três
meses.
"Criar um distrito para o grafite pode ser interessante, pois daria
total liberdade para aqueles artistas exercitarem sua arte. Seria
necessário verificar quais seriam estes critérios para estabelecer o
local certo. Eles teriam que ser ouvidos e a população também", defende o
arquiteto João Graziosi, professor de Arquitetura e Urbanismo da
Universidade Mackenzie.
Graziosi diz, no entanto, que a criação do grafitódromo não deve
excluir outros locais da cidade possíveis para os murais e grafites. "Os
painéis da 23 de maio, assim como a parte de baixo de viadutos e uma
série de paredes cegas existentes na cidade ficaram bem melhores com a
intervenção artística, por exemplo. Acho que deveriam continuar a
existir."
Já para a arquiteta e professora Ana Cláudia Scaglione Veiga Castro, da
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, "a ideia de grafites em
'lugares adequados' pareceria inadequada se não fosse trágica".
"Trata-se de uma espécie de ação de marketing que busca dar
visibilidade a essa ideia de prefeito-gestor, aquele que administra a
cidade como se esta fosse uma empresa. Nesse caso, o 'gerente' da
empresa quer dar um exemplo para seus 'funcionários e clientes' de que
não se deve sujar as paredes."
Grafite x pichação
A discussão sobre o grafite como arte ou como vandalismo, segundo Rui
Amaral, reflete o modo como cada gestão pública entende essas
intervenções urbanas.
A autorização para fazer intervenções na avenida 23 de Maio, por
exemplo, era pedida pelos artistas desde a gestão de Jânio Quadros (1986
a 1989), mas foi autorizada somente no fim da gestão de Fernando Haddad
(PT), em 2016.
"A avenida 23 de Maio foi o ápice do movimento artístico urbano
paulistano", relembra Amaral, que é responsável pelas gravuras do buraco
da av. Paulista, desenhados pela primeira vez, de forma ilegal, em 1989
e legalizados em 1991 pela gestão de Luiza Erundina (PT).
Até 2011, o grafite em edifícios públicos era considerado crime
ambiental e vandalismo em São Paulo. A partir daquele ano, somente a
pichação continuou sendo crime.
De um modo geral, a pichação - que costuma trazer frases de protesto ou
insulto, assinaturas pessoais ou de gangues - é considerada uma
intervenção agressiva e que degrada a paisagem da cidade. O grafite, por
sua vez, é considerado arte urbana.
Para o sociólogo Alexandre Barbosa Pereira, pesquisador de Antropologia
Urbana da Unifesp, a dissociação entre grafite e pichação contribuiu
para que o grafite começasse a ser aceito, mas apenas como forma de
combate ao picho.
O pesquisador lembra que uma das justificativas da gestão Doria para
apagar os painéis da 23 de Maio era a presença de pichação sobre eles.
"O grafite, mais associado à arte, é mais facilmente entendido como
forma de ação do Estado e mesmo do mercado, já a pichação, execrada pela
maioria da população, é uma máquina de guerra, nômade e difícil de ser
capturada. Assim, fica mais fácil criminalizar esta e mesmo criar certo
pânico moral em torno dela como forma de marketing político e
publicidade pessoal."
Outro efeito da decisão de legalizar somente do grafite, segundo Rui
Amaral, é a confusão entre os conceitos de grafite, pichação e
muralismo.
De acordo com o artista, foi o que aconteceu na decisão do atual
prefeito de apagar os painéis da avenida 23 de Maio. "O que havia na 23
de Maio eram murais, e não grafite. Os murais são painéis autorizados e
encomendados", afirma.
"(A artista plástica japonesa naturalizada brasileira) Tomie Ohtake
também tem painéis em espaços públicos e duvido que a gestão pública
mexeria na obra dela sem consultar os responsáveis."
A artista plástica Bárbara Goys, autora de um dos painéis apagados da
23 de Maio, diz que ação contra as obras é "um tiro no pé". "Por trás de
um grafite existe uma história que não pode ser ignorada", diz.
"A própria capital criou um guia mapeando os grafites na cidade. Não
sei como será agora, talvez tenham que refazer este guia. E,
infelizmente, agora a avenida 23 de Maio perde o título de maior mural a
céu aberto da América Latina."
Do erudito ao popular
Qual é exatamente a origem do grafite em São Paulo? Para acadêmicos,
ele é fruto dos jovens do movimento hip hop que nasceu na periferia da
capital. Mas para alguns dos pioneiros da arte de rua na cidade, o
grafite paulistano nasceu de movimentos artísticos consagrados, que
foram trazidos para um contexto público e urbano.
Segundo o sociólogo Sérgio Miguel Franco, os primeiros desenhos que
apareceram na capital eram influenciados pelas culturas negra e latina e
traziam consigo um traço marginal. "O grafite foi um espelho próspero
para a cultura desenvolvida pelos jovens de origem periférica da
cidade."
Para o artista Prades, os 20 anos de censura e isolamento cultural
imposto pela ditadura militar fizeram com que os grafiteiros que
passaram a ocupar as ruas na década de 1980 se inspirassem na obra dos
artistas plásticos da geração dos anos 1960.
"O pensamento que alimentava as ações de arte nas ruas era fruto da
nossa tradição modernista, da anarquia antropofágica, da poética
neoconcretista, da irreverência inspiradora de Flavio de Carvalho,
Waldemar Cordeiro, Lygia Pape, Lygia Clark, Hélio Oiticica, Artur
Barrio, Nelson Leirner, Mira Schendel e muitos outros", conta.
Prades era membro do Tupinãodá, um dos primeiros grupos de artistas
grafiteiros do Brasil. O coletivo, responsável pela ocupação do Beco do
Batman, na Vila Madalena, escolhia lugares públicos considerando sua
relevância para a cidade de São Paulo.
"Evitamos sair por aí pintando nas paredes das casas das pessoas, não
fazia sentido. Quando decidíamos pintar, escolhemos espaços públicos de
grande impacto urbano", afirma.
"Era uma catarse, um grito de jovens artistas de uma geração esmagada
pela brutalidade insana e truculenta da ditadura. Artistas que não
trilharam o caminho da formalidade e que, ao perceberem a dificuldade de
encaixar-se no sistema da arte, procuraram encontrar o seu próprio
espaço."
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