segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

O que fazer quando chega a esperada aposentadoria?

Fonte: Jornal Cruzeiro do Sul
Depois de 30 anos trabalhando, o executivo Joaquim Costa se aposentou e acreditou que alcançara a plenitude do tão aguardado descanso. A trégua durou menos de um mês. Sem suportar o ócio, tratou de voltar ao mercado e hoje está novamente produzindo. "Não aguentei ficar dando bom dia para papagaio na televisão. Estava enlouquecendo", contou. Aposentar-se é algo de significado muito maior. Consiste no fim de um ciclo, num quase rito de passagem e precisa de preparo antecipado.

Costa sentiu a necessidade de retomar o significado da própria vida. "Eu precisava voltar a me sentir útil. Não queria passar pelo coitado que fica sozinho, esquecido, perturbando o sossego com palpites. Até minha mulher ficou contente porque eu resolvi retornar ao batente. Não é fácil ficara parado", justificou.
 A diretora de escola Dilma Tomé de Sousa Vestina, estava, por volta dessa mesma época, a poucos meses de cumprir o período que a levaria a se aposentar. Foi tomada por uma inquietação, um "frio na barriga", um quase desespero. Tudo porque não tinha clareza do que estava por vir.

Dilma se aposentou, mas voltou a trabalhar como professora. "Passei boa parte da minha vida cumprindo expediente, organizando coisas, coordenando a escola. De repente ninguém mais me ligava para pedir ajuda, para falar do trabalho. Foi muito difícil". A trégua, no entanto, durou pouco. Dilma desistiu passados alguns meses e hoje está adaptada à nova rotina.

Aposentadas e ocupadas

Quarta-feira, dia 22, por volta das 15h, na unidade Sorocaba do Sesc: um grupo de senhoras aposentadas pratica atividades desportivas. Dispostas e animadas contam ao repórter que pouco se importam, ou lembram, que não trabalham mais. "Nós gostamos de viver e de aproveitar a vida. Se não, a doença chega e leva tudo embora", disse Zenaide Silva, 63.

Do alto de seus 81 anos, Valentina Kunechow quer falar de sua história e lembra que se acidentou. Foi tecelã, comerciária e hoje desfruta do convívio com as amigas. "A gente aqui não tem tempo para pensar em aposentadoria; estamos todas tão envolvidas com a diversão que deixamos os problemas de lado."

Como elas, outra aposentada, Dora Calesan, de 74 anos, contou que trabalhou na Fábrica Fonseca. Guarda boas lembranças daquela época, mas hoje está adaptada à nova vivência. "Sou, com muito orgulho, aposentada e procuro me manter ocupada. Venho aqui, viajo, estou sempre ocupada".

As vivências relatadas guardam em comum o fato de que a aposentadoria ainda hoje é um tema bastante controverso que afeta a todos não apenas por conta do impacto que o aumento do limite de idade e do tempo de contribuição, (ambos previstos na proposta de reforma que o governo quer que o Congresso Nacional aprove), deverá produzir.

Mudanças

A psicóloga Raquel Mazuqui exemplifica: "Imagine alguém que faz a mesma coisa por 30, 40 anos. Acorda no mesmo horário, faz o mesmo trajeto para o serviço, toma café no mesmo lugar, senta na mesma cadeira. Chega um dia e isso tudo muda. O que fazer, então?"

Ainda de acordo com a especialista, existem indivíduos para quem a aposentadoria só reserva situações negativas. "Quem nunca ouviu a frase: se fulano deixar de trabalhar, fica doente?". O problema, acrescenta Raquel, é que as pessoas criam expectativas diferentes da realidade, ou seja, não têm exatamente a dimensão daquilo que as aguarda.

A coach e psicóloga Dulce Francisco explica que é possível se preparar terreno para à nova vivência e destaca que isto pode acontecer já na idade escolar, ou seja, muito antes do momento da aposentadoria. "Se existe idade para dar início à preparação para o ato de se aposentar, eu diria que a escola pode ser um dos marcos. Desde lá, todos somos preparados para entender que quando atingimos um objetivo na vida, devemos da mesma forma estar preparados para as angústias, os dissabores que a mudança trará."

E quais são os medos e incertezas que mais afetam os futuros aposentados? Raquel Mazuqui diz que a preocupação com a sobrevivência financeira já que o padrão de vida quase sempre diminui materialmente lidera o ranking das inquietações. "Existe, ainda, o medo de ficar doente por falta de ocupação", ela acrescenta.

Dulce Francisco afirma que a perda do convívio social está entre os principais dramas existenciais administrados por quem se aposenta. "A solidão, o abandono e a ausência de referenciais provocam um impacto nas pessoas. Elas precisam se ajustar, entender que não terão a mesma atenção e tratamento de antes, na maioria dos casos".

Síndrome

O acúmulo de inconvenientes que aposentadoria provoca determinou o surgimento de um fenômeno ao qual foi conferido o status de síndrome: a síndrome do marido aposentado. Pesquisadores dos Estados Unidos, contam Raquel e Dulce constataram o aumento do desgaste do relacionamento conjugal por conta da permanência maior do homem aposentado em casa.

É inevitável: com mais tempo para compartilhar os problemas os casais descobrem mais divergências, os defeitos e criam área de atrito. É o caso, por exemplo, do aposentado que quer consertar tudo na casa, mas que por não conseguir se estressa. Curiosamente, conforme as especialistas, as mulheres são menos suscetíveis a essas crises.

As aposentadas se adaptam com mais facilidade à nova rotina. Dilma Vestina, a personagem desta matéria, confirma: "Eu procuro me manter ocupada e cuidar dos meus afazeres sem interferir na rotina do meu marido. Com isso, as chances de que aconteçam problemas são menores".

Nova etapa

A aposentadoria impõe ainda àqueles que a alcançam o desafio de reorganizar a vida. Raquel Mazuqui e Dulce Francisco afirmam que é importante ter em conta sempre que o ato de se aposentar não representa o fim, mas sim o recomeço de uma nova etapa. "As pessoas podem e devem continuar se sentindo úteis. Dividir a tarefa de cuidar da família, envolver-se com projetos sociais, buscar novas alternativas, manter-se ocupado, tudo isso ajuda", afirmam.

Até por isso, segundo o consultor financeiro, Vitor Hugo Rosa é saudável continuar trabalhando. "Eu, pelo menos, espero que seja assim comigo. Ninguém precisa manter-se no mercado fazendo as mesmas coisas que fazia, com vínculo, compromissos, horários, mas pode, evidentemente, fazer algo que torne tudo mais suportável e melhor. Existe, afinal, vida depois da aposentadoria".

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