Fonte: Jornal Cruzeiro do Sul
Depois de 30 anos trabalhando, o executivo Joaquim Costa se aposentou e
acreditou que alcançara a plenitude do tão aguardado descanso. A trégua
durou menos de um mês. Sem suportar o ócio, tratou de voltar ao mercado e
hoje está novamente produzindo. "Não aguentei ficar dando bom dia para
papagaio na televisão. Estava enlouquecendo", contou. Aposentar-se é
algo de significado muito maior. Consiste no fim de um ciclo, num quase
rito de passagem e precisa de preparo antecipado.
Costa sentiu a necessidade de retomar o significado da própria vida. "Eu
precisava voltar a me sentir útil. Não queria passar pelo coitado que
fica sozinho, esquecido, perturbando o sossego com palpites. Até minha
mulher ficou contente porque eu resolvi retornar ao batente. Não é fácil
ficara parado", justificou.
A diretora de escola Dilma Tomé de Sousa Vestina, estava, por volta
dessa mesma época, a poucos meses de cumprir o período que a levaria a
se aposentar. Foi tomada por uma inquietação, um "frio na barriga", um
quase desespero. Tudo porque não tinha clareza do que estava por vir.
Dilma se aposentou, mas voltou a trabalhar como professora. "Passei boa
parte da minha vida cumprindo expediente, organizando coisas,
coordenando a escola. De repente ninguém mais me ligava para pedir
ajuda, para falar do trabalho. Foi muito difícil". A trégua, no entanto,
durou pouco. Dilma desistiu passados alguns meses e hoje está adaptada à
nova rotina.
Aposentadas e ocupadas
Quarta-feira, dia 22, por volta das 15h, na unidade Sorocaba do Sesc: um
grupo de senhoras aposentadas pratica atividades desportivas. Dispostas
e animadas contam ao repórter que pouco se importam, ou lembram, que
não trabalham mais. "Nós gostamos de viver e de aproveitar a vida. Se
não, a doença chega e leva tudo embora", disse Zenaide Silva, 63.
Do alto de seus 81 anos, Valentina Kunechow quer falar de sua história e
lembra que se acidentou. Foi tecelã, comerciária e hoje desfruta do
convívio com as amigas. "A gente aqui não tem tempo para pensar em
aposentadoria; estamos todas tão envolvidas com a diversão que deixamos
os problemas de lado."
Como elas, outra aposentada, Dora Calesan, de 74 anos, contou que
trabalhou na Fábrica Fonseca. Guarda boas lembranças daquela época, mas
hoje está adaptada à nova vivência. "Sou, com muito orgulho, aposentada e
procuro me manter ocupada. Venho aqui, viajo, estou sempre ocupada".
As vivências relatadas guardam em comum o fato de que a aposentadoria
ainda hoje é um tema bastante controverso que afeta a todos não apenas
por conta do impacto que o aumento do limite de idade e do tempo de
contribuição, (ambos previstos na proposta de reforma que o governo quer
que o Congresso Nacional aprove), deverá produzir.
Mudanças
A psicóloga Raquel Mazuqui exemplifica: "Imagine alguém que faz a mesma
coisa por 30, 40 anos. Acorda no mesmo horário, faz o mesmo trajeto para
o serviço, toma café no mesmo lugar, senta na mesma cadeira. Chega um
dia e isso tudo muda. O que fazer, então?"
Ainda de acordo com a especialista, existem indivíduos para quem a
aposentadoria só reserva situações negativas. "Quem nunca ouviu a frase:
se fulano deixar de trabalhar, fica doente?". O problema, acrescenta
Raquel, é que as pessoas criam expectativas diferentes da realidade, ou
seja, não têm exatamente a dimensão daquilo que as aguarda.
A coach e psicóloga Dulce Francisco explica que é possível se preparar
terreno para à nova vivência e destaca que isto pode acontecer já na
idade escolar, ou seja, muito antes do momento da aposentadoria. "Se
existe idade para dar início à preparação para o ato de se aposentar, eu
diria que a escola pode ser um dos marcos. Desde lá, todos somos
preparados para entender que quando atingimos um objetivo na vida,
devemos da mesma forma estar preparados para as angústias, os dissabores
que a mudança trará."
E quais são os medos e incertezas que mais afetam os futuros
aposentados? Raquel Mazuqui diz que a preocupação com a sobrevivência
financeira já que o padrão de vida quase sempre diminui materialmente
lidera o ranking das inquietações. "Existe, ainda, o medo de ficar
doente por falta de ocupação", ela acrescenta.
Dulce Francisco afirma que a perda do convívio social está entre os
principais dramas existenciais administrados por quem se aposenta. "A
solidão, o abandono e a ausência de referenciais provocam um impacto nas
pessoas. Elas precisam se ajustar, entender que não terão a mesma
atenção e tratamento de antes, na maioria dos casos".
Síndrome
O acúmulo de inconvenientes que aposentadoria provoca determinou o
surgimento de um fenômeno ao qual foi conferido o status de síndrome: a
síndrome do marido aposentado. Pesquisadores dos Estados Unidos, contam
Raquel e Dulce constataram o aumento do desgaste do relacionamento
conjugal por conta da permanência maior do homem aposentado em casa.
É inevitável: com mais tempo para compartilhar os problemas os casais
descobrem mais divergências, os defeitos e criam área de atrito. É o
caso, por exemplo, do aposentado que quer consertar tudo na casa, mas
que por não conseguir se estressa. Curiosamente, conforme as
especialistas, as mulheres são menos suscetíveis a essas crises.
As aposentadas se adaptam com mais facilidade à nova rotina. Dilma
Vestina, a personagem desta matéria, confirma: "Eu procuro me manter
ocupada e cuidar dos meus afazeres sem interferir na rotina do meu
marido. Com isso, as chances de que aconteçam problemas são menores".
Nova etapa
A aposentadoria impõe ainda àqueles que a alcançam o desafio de
reorganizar a vida. Raquel Mazuqui e Dulce Francisco afirmam que é
importante ter em conta sempre que o ato de se aposentar não representa o
fim, mas sim o recomeço de uma nova etapa. "As pessoas podem e devem
continuar se sentindo úteis. Dividir a tarefa de cuidar da família,
envolver-se com projetos sociais, buscar novas alternativas, manter-se
ocupado, tudo isso ajuda", afirmam.
Até por isso, segundo o consultor financeiro, Vitor Hugo Rosa é saudável
continuar trabalhando. "Eu, pelo menos, espero que seja assim comigo.
Ninguém precisa manter-se no mercado fazendo as mesmas coisas que fazia,
com vínculo, compromissos, horários, mas pode, evidentemente, fazer
algo que torne tudo mais suportável e melhor. Existe, afinal, vida
depois da aposentadoria".
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