Jornal Cruzeiro do Sul
A aposentada Marilene Muraro, de 65 anos, encontrou nos meios
digitais uma boa maneira de recordar as brincadeiras que fazia na
infância. As aulas na Universidade da Terceira Idade, da Universidade de
Sorocaba (Uniso), a ajudaram a aprender a mexer no tablet. Com o
aparelho, ela aproveita para brincar e, ao mesmo tempo, desenvolver
aspectos como raciocínio rápido e reflexo.
O aposentado Luiz
Guilherme Muraro, 66 anos, gosta de jogar cartas. Uma vez por semana,
reúne-se com um grupo de amigos para praticar o pôquer, sua disputa
preferida (e nunca apostando dinheiro, faz questão de ressaltar).
Diariamente, ele senta-se em frente ao computador para a disputa
virtual, enfrentando -- e conhecendo -- jogadores do mundo todo.
Marilene e Luiz Guilherme são casados e aprenderam a usar os jogos
virtuais para o próprio lazer. Ela pratica constantemente o Kyodai, uma
espécie de jogo da memória. Eventualmente, também se arrisca no jogo da
forca ou no caça palavras. "Tem que usar estratégia realmente. Quero
sempre me superar. E a gente fica mais ágil, pois você está disputando
com você mesma e tem de ser rápida", conta, enumerando os benefícios da
atividade.
Além do pôquer, Luiz gosta de outros disputas com
cartas, como paciência, paciência spider e freecel. "Os jogos, como o
próprio nome diz, requerem paciência, observação. Você tem de estar
atento", diz. No pôquer propriamente dito, são ao menos 10 partidas
diárias, numa prática que virou praticamente um ritual familiar:
"Enquanto minha esposa assiste novela, estou lá no pôquer."
Projeto
O casal sorocabano faz parte do público-alvo do projeto que vem sendo
desenvolvido por pesquisadores do Instituto de Ciências Matemáticas e de
Computação (ICMC) da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade
Federal de São Carlos (UFSCar). Eles trabalham na criação de uma
plataforma de jogos digitais para idosos. Leandro do Amaral, que faz
doutorado no ICMC, lembra que tais ferramentas são, via de regra,
voltadas à população mais jovem. "Adequar e proporcionar esse tipo de
conteúdo aos idosos ainda é um desafio que, se vencido, será um
importante instrumento de inclusão social", acredita.
O projeto
recebeu aprovação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São
Paulo (Fapesp) e receberá até R$ 200 mil nos primeiros nove meses de
pesquisa. Ao final do período, os pesquisadores apresentarão um
relatório técnico sobre o andamento do projeto. Caso obtenham resultados
satisfatórios, o financiamento pode ser renovado por mais dois anos.
Além da parte técnica que envolve a criação da plataforma, o
relacionamento humano é outro ganho dos participantes do projeto. "Do
ponto de vista acadêmico, os alunos formados em computação saem do curso
falando apenas com a máquina. Agora, eles estão começando a ter contato
com as pessoas e entender as necessidades do ser humano. Isso trará
muitos benefícios e humanizará os cursos da área", comenta Renata
Pontin, professora do ICMC.
Um treinamento valioso para o cérebro
Desenvolver jogos digitais voltados especificamente à terceira idade
ainda é um desafio para quem trabalha na área. Com o mercado voltado
principalmente aos jovens, quem pensa em trabalhar plataformas
específicas aos idosos precisa redobrar a atenção em alguns pontos. "A
questão principal é a visualização. O jogador precisa conseguir
identificar, ter boa leitura, cores, enfim, aspectos visuais que
consigam reter a atenção de quem está nessa faixa etária", diz Randolph
de Souza, coordenador do curso de Jogos Digitais da Universidade de
Sorocaba (Uniso).
Se a acessibilidade é um dos pontos-chaves
dos jogos para idosos, a criatividade não precisa, necessariamente, ser
tão exigida. Isso porque muitos idosos preferem brincar com jogos que já
conheciam -- e gostavam -- quando mais jovens. Palavras cruzadas, forca
e caça palavras estão entre os preferidos. "Você adapta para a
plataforma, numa outra mecânica, no caso, a digital. O jogo não depende
mais de papel e caneta, mas segue a mesma lógica e é exatamente o
mesmo", comenta o coordenador.
Assim, quem brinca digitalmente
tem a oportunidade de ganhar em qualidade de vida. "É como se fosse um
treinamento para o cérebro", resume Randolph. "Se utilizado de forma
saudável, acaba auxiliando, é uma ferramenta a mais para tirar da
inércia", completa, lembrando que os jogos podem ser úteis para aumentar
o estímulo cerebral, a aptidão cognitiva e a parte motora dos idosos.
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